
Assistir aos filmes do mexicano Alejandro G. Iñárritu é quase sempre uma garantia de encarar histórias que fogem do caminho mais fácil. A recente sátira política Digger não foge à regra. O filme exibe uma ambição visual clara e uma técnica voltada a provocar constante desorientação, enquanto encara de frente os absurdos contemporâneos, da ganância sem freio às crises políticas e sociais. O maior desafio de uma obra como essa, contudo, não é apenas a forma de contar a história, mas o quanto ela colide com a realidade. Em um mundo onde o cotidiano já parece surreal, a ficção enfrenta o dilema de tentar retratar o absurdo sem ser engolida por ele.
Na trama acompanhamos Digger Rockwell, interpretado por Tom Cruise (sob pesada maquiagem), um magnata do petróleo considerado um dos homens mais poderosos do mundo, com livre acesso ao presidente dos Estados Unidos, Compson (John Goodman). Após suas operações deflagrarem um desastre ambiental de proporções catastróficas no Alasca, o bilionário se lança em uma missão de contenção de danos, se vendendo como o grande salvador da humanidade diante da própria crise que provocou. É a partir dessa premissa que o longa monta sua sátira sobre poder, corporativismo e o espetáculo da mídia.

O longa constrói o centro dessa engrenagem a partir do seu protagonista, mostrando um sujeito totalmente encastelado em seu mundo imaginário. Aqui vale uma comparação imediata com Charles Foster Kane e sua idealizada Xanadu, em Cidadão Kane. Rockwell cria uma bolha onde o mundo de fora simplesmente não consegue entrar, funcionando como um refúgio seguro contra as consequências dos seus próprios atos. O filme usa essa figura de poder para mostrar como se constrói uma narrativa conveniente sobre o passado, uma ficcionalização criada sob medida para justificar qualquer absurdo, e eles são muitos. A história deste magnata do petróleo escancara essa tendência quase obsessiva que certas pessoas e estruturas têm de inventar desculpas elaboradas para negar e fingir que não estão vendo o que está escancarado bem na nossa cara.
Essa contradição ganha seu ponto mais alto em uma ótima sequência de cerca de dez minutos que se impõe como um grande momento do filme. Trata-se de um verdadeiro tour de force de Tom Cruise, em uma atuação tão intensa que funciona quase como um passaporte carimbado para a corrida ao Oscar de melhor ator. Na cena, Rockwell assume a palavra em um auditório lotado de autoridades políticas, incluindo presidentes, primeiros-ministros e embaixadores. Sem pausas, ele faz um discurso implacável onde admite abertamente o rastro de destruição e os danos ambientais terríveis causados pela exploração desenfreada do petróleo. A grande sacada do personagem está na virada dos seus próprios argumentos iniciais. Ao mesmo tempo em que reconhece a devastação, ele usa todo o conforto da civilização moderna para justificar que os benefícios dessa exploração continuam valendo a pena. É o retrato chocante da hipocrisia de quem comanda o jogo.

Para costurar toda essa dinâmica, Iñárritu permanece fiel ao seu estilo barroco pós-moderno de contar histórias, apostando em um virtuosismo técnico e narrativo que não se envergonha de sua própria ambição, algo bem visível em obras como Babel (2006), Birdman (2014) e O Regresso (2015). A grande diferença aqui, quando comparamos com outras experiências megalômanas recentes, como a ego trip Megalópolis de Francis Ford Coppola, é que Digger se predispõe a correr riscos calculados e de maneira muito consciente. Falar sobre o filme sem entregar os rumos e certos aspectos da trama é um grande desafio em qualquer análise crítica neste momento de lançamento. Não porque a narrativa viva de reviravoltas mirabolantes ou plot twists baratos, mas porque em vários momentos a gente se vê forçado a fazer uma reorientação mental para entender para onde a história está nos levando. É um exercício constante de ajuste de rota para quem assiste.
Por isso mesmo, Digger passa longe de ser uma obra voltada para grandes públicos, que facilmente podem não entrar no jogo de sua sátira e acabar rejeitando o filme, ainda que a presença de Tom Cruise seja um tremendo chamariz. É verdade que o discurso crítico proposto muitas vezes flerta com a superficialidade, recorrendo a lugares-comuns sobre ganância, mídia e crise climática. No entanto, esse núcleo conceitual mais raso acaba compensado por uma estrutura narrativa altamente elaborada e instigante. Deste modo, o longa equilibra o resultado oferecendo talvez menos substância do que aparenta, mas compensando com um domínio de forma e espetáculo que exige total predisposição da plateia.
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Olhando o quadro geral, Digger se mostra um exercício fascinante sobre os limites da própria sátira no cinema contemporâneo, dialogando, nesse aspecto, com o que Stanley Kubrick propôs em Dr. Fantástico (1964). A sátira depende fundamentalmente do exagero para expor o ridículo, como uma caricatura dos poderosos, mas a concepção de Iñárritu esbarra na ironia de um mundo real que já se tornou exagerado por si só, onde a ganância e a irresponsabilidade dos líderes globais frequentemente superam qualquer deboche criado pela ficção. Ainda assim, mesmo quando sua crítica social soa simplória e óbvia, a força da obra como um todo, somada à entrega visceral de Tom Cruise, garante o funcionamento do espetáculo. É uma obra imperfeita e pretensiosa na medida certa, que pode dividir opiniões, mas que se recusa a entregar o caminho mais fácil a quem se dispõe a assisti-la.
Assista ao trailer: Digger
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela