Mostrando postagens com marcador Anne Hathaway. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Anne Hathaway. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O Fim da Rua: de volta para o passado

 

Um típico bairro residencial de subúrbio de uma grande cidade dos Estados Unidos. Uma família formada por pai, mãe, dois filhos adolescentes e um cachorro. Uma boa casa com gramado, carro na garagem e cercas brancas: o retrato do sonho americano de felicidade aparente que, nas sombras da intimidade, esconde as fraturas de um casamento em crise. Como metáfora desse iminente abalo doméstico, um fenômeno inexplicável provoca um lapso espaço-temporal que lança a vizinhança direto para a Era Jurássica, no tempo em que os dinossauros dominavam o planeta. Diante de um ambiente tão hostil, os personagens precisam encontrar maneiras de garantir não apenas a sobrevivência, mas também a preservação do núcleo familiar. Este é o contexto de O Fim da Rua (The End of Oak Street), um misto de drama, ficção científica, ação e mistério dirigido por David Robert Mitchell (o mesmo do interessante Corrente do Mal, de 2014). O casal protagonista, Greg e Denise, é interpretado por Ewan McGregor e Anne Hathaway em atuações honestas e viscerais em sua entrega.

A presença de J. J. Abrams na produção revela de imediato a grande inspiração desta aventura distópica. Mesmo sem assinar a direção, Abrams imprime no projeto aquele toque inconfundível dos anos 1980, tão marcante na obra de nomes como Steven Spielberg e Joe Dante. Essa influência fica clara na forma como o filme se apropria de uma premissa de ficção científica especulativa e a conecta a sentimentos profundamente humanos. O enredo situa os personagens no confronto entre o encantamento das descobertas da adolescência e os dilemas tipicamente adultos, enquanto enfrentam a ameaça assustadora que coloca em risco o ambiente familiar. Além disso, ao apostar na fórmula do mistério, bem no espírito de séries como Além da Imaginação, a produção não só desperta a nostalgia do sci-fi clássico, como também garante um ritmo ágil que equilibra suspense e drama.

A ambientação oitentista (a história se passa em 1982), além de acionar esse gatilho nostálgico, traz outro elemento fundamental para a lógica interna da narrativa ao homenagear um período ainda analógico. Sem computadores, wi-fi, dispositivos digitais ou telefones celulares, o isolamento daquele bairro e de seus moradores se estabelece também pelas limitações em compreender o que efetivamente está ocorrendo. Esse "desconhecimento", que em um mundo digital seria resolvido em poucos minutos, contribui decisivamente para potencializar a sensação de uma ameaça inexplicável. A bem da verdade, a ciência e a física teórica explicariam em tese o fenômeno, e a menção ao astrofísico e divulgador científico Carl Sagan, feita por uma das personagens, reforça o embasamento lógico dessa fantasia.

A exploração do medo do desconhecido, matriz primordial da ficção científica, ganha força ao focar nas consequências desse evento catastrófico sobre personagens específicos. A escala global da tragédia existe como pano de fundo, mas o filme acerta ao concentrar sua narrativa na dimensão humana e íntima do colapso. Ao privar o espectador de uma visão panorâmica do caos, a narrativa nos limita à mesma ignorância e vulnerabilidade dos protagonistas. O pavor não vem apenas do perigo iminente, mas da incerteza absoluta sobre o que sobrou do mundo além daquela rua.

Essa sensação de perigo constante ganha contornos físicos pela visceralidade das cenas gráficas, que dão o tom sem rodeios e elevam o impacto do suspense. Longe da espetacularização higienizada comum no gênero contemporâneo, o filme opta por uma violência mais crua e direta. As aparições das criaturas resgatam o peso, a ferocidade e a imprevisibilidade de predadores reais. Assim, devolve-se a essas feras monumentais o status de animais mais aterradores que já pisaram na Terra, recuperando a imponência perdida após as recentes e descartáveis sequências da franquia Jurassic World.

Essa atmosfera de brutalidade reflete-se diretamente no elenco, explorando, por exemplo, uma faceta física e intensa de Anne Hathaway ao colocá-la para correr, suar e portar armas. Esse registro contrasta com a imagem de glamour e leveza consolidada por ela em comédias românticas e dramas de época. Embora a atriz já tenha se aventurado pela ação e pelo sci-fi (como em Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e Interestelar), ver sua figura, tão associada à elegância, imersa no caos da sobrevivência gera um estranhamento produtivo que joga a favor da tensão constante da narrativa.

Mesmo com sua violência brutal, por vezes escancarada e em outras apenas sugerida, O Fim da Rua é um filme que essencialmente diverte ao provocar a adrenalina do espectador em uma verdadeira montanha-russa de emoções, alternando momentos verdadeiramente tocantes com outros de pavor genuíno. A melhor maneira de apreciar este pesadelo suburbano é não procurar (nem esperar) respostas: apenas deixe-se levar pelas sensações e entre neste jogo que transita entre o bizarro e o mais puro escapismo.

Assista ao trailer: O Fim da Rua


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quinta-feira, 16 de julho de 2026

A Odisseia: longo caminho de volta

A imponência poética do clássico de Homero, obra seminal da literatura ocidental, encontra uma equivalente magnitude visual nas imagens colossais da adaptação A Odisseia (The Odyssey), de Christopher Nolan. Logo na abertura, o diretor nos lança em um território cercado de presságios, pistas sutis e subtextos narrativos que preparam o terreno para o que está por vir. É uma imersão direta no desconhecido, na qual a imensidão física do cenário serve como metáfora para o vazio e a incerteza do próprio destino humano. Na condição de testemunhas, nos sentimos tão perdidos e desamparados quanto os antigos navegantes diante de um oceano sem mapas. 

A trama, em essência, reconta a milenar saga de Odisseu, vivido por Matt Damon como um líder calejado e assombrado pelas decisões do passado, cuja única obsessão é retornar para sua terra natal, a ilha de Ítaca, após o fim da guerra devastadora na conquista de Troia. Enquanto ele enfrenta uma verdadeira provação física e psicológica cruzando caminhos perigosos pelos mares, sua esposa Penélope, interpretada por Anne Hathaway, resiste como pode à pressão de pretendentes que tentam usurpar seu lar e seu reino. Completa o núcleo central o jovem Telêmaco, papel de Tom Holland, filho de Odisseu, que cresceu sem a figura paterna e agora tenta defender o legado da família. É a clássica história de Homero sobre família, lealdade, sobrevivência, destino e culpa. O elenco principal ainda conta com nomes como Robert Pattinson (Antinous), Lupita Nyong'o (Helena), Zendaya (Athena), Charlize Theron (Calypso), Elliot Page (Sinon), Mia Goth (Melantho) e John Leguizamo (Eumaeus).

Para traduzir toda essa carga dramática e a própria imensidão desse mundo mitológico em imagens, Nolan recorre a escolhas estéticas grandiosas. O diretor abriu mão do registro digital e rodou o filme inteiramente em película no formato IMAX de alta resolução. Essa decisão técnica não é mero capricho visual, pois a textura orgânica da película e a escala monumental das telas gigantes esmagam o espectador, transformando a sala de cinema em um templo de contemplação. É uma escolha que resgata a própria essência do cinema como uma experiência coletiva e sensorial de tirar o fôlego.

Os minutos iniciais da obra de Christopher Nolan desestabilizam temporariamente a compreensão do espectador, provocando uma desorientação pelo denso volume de informações apresentadas de imediato. No entanto, essa vertigem é calculada. Por volta dos 50 minutos de projeção, as engrenagens narrativas começam a entrar nos eixos e, em um passe de mágica, o filme domina completamente a nossa atenção, sem dar espaço para pausas ou fôlego restaurador. O resultado é surpreendente, pois os quase 160 minutos de duração fluem com tamanha organicidade que passam sem o peso arrastado comum a produções desse porte.

A conexão com o clássico milenar fica ainda mais fascinante pela maneira como a história é contada. Nolan, como é sua característica, aposta em uma narrativa não linear, em que o tempo se dobra e as cenas se misturam fora de ordem cronológica. Essa estrutura fragmentada, aliás, já estava de alguma forma presente na obra de Homero, que também começa no meio do caminho para só depois resgatar o passado através de lembranças. A montagem dinâmica desses diferentes planos narrativos funciona como um convite irresistível, prendendo a nossa atenção de um jeito tão forte que nos sentimos navegando lado a lado com o protagonista por aqueles reinos mitológicos.

No fundo, essa engrenagem temporal é o veículo perfeito para a receita clássica da Jornada do Herói. A viagem do protagonista por cenários gigantescos e perigosos serve como um espelho para o que acontece dentro dele. Cada monstro e obstáculo do mito grego ganha aqui uma roupagem psicológica. A fúria implacável de Poseidon se transforma no peso esmagador do destino, enquanto o magnetismo perigoso do canto das sereias e os feitiços de Circe passam a representar as distrações e tentações que nos desviam do caminho. Até mesmo o confronto cego com o Ciclope e a travessia tensa entre os redemoinhos de Caríbdis e as garras tentaculares de Cila encontram paralelo naquelas decisões limite onde qualquer erro é fatal. Ao passar por testes que quase o fazem perder o juízo, o herói é obrigado a deixar o orgulho e a vaidade de lado para finalmente conseguir voltar para casa. É a constatação de que vencer os perigos do caminho acaba sendo a parte mais fácil, porque o desafio de verdade é encarar os fantasmas que carregamos na nossa própria mente. Essa provação interna é ilustrada com perfeição no momento de epifania de Odisseu após contemplar a aniquilação completa de Troia, incluindo a destruição dos templos das divindades que, violados, desencadearam a fúria implacável de Poseidon.

Cercado de expectativas, o filme de Christopher Nolan se equilibra entre a grandiosidade de uma fantasia mítica, o dinamismo de uma aventura de ação e a escala íntima da jornada de um homem consumido pela culpa e por uma promessa. Tudo indica que A Odisseia já nasce clássico, embora só o teste do tempo possa, de fato, confirmar essa condição. Tomando de empréstimo o título da obra-prima de Dostoiévski, a narrativa se projeta como um verdadeiro 'crime e castigo' encenado no mitológico plano limite entre os homens e os deuses. Nessa fronteira espiritual e psicológica, Nolan transforma o peso do remorso humano em uma saga de proporções cósmicas, na qual a busca pela redenção se torna tão monumental quanto as próprias lendas que a cercam.

Assista ao trailer: A Odisseia


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Armageddon Time: estranhos em terra estranha


O tema da imigração não é novo na filmografia do cineasta nova-iorquino James Gray. Já esteve presente, de maneira explícita, em Era Uma Vez em Nova York (2013), que mostra duas irmãs polonesas que chegam à América no início do século XX em busca de uma vida melhor. De certa maneira, o tema, em um conceito expandido e metafórico, entendido como um deslocamento do ponto de origem para um destino desconhecido, também está presente em outras obras como Z, A Cidade Perdida (2016) e Ad Astra: Rumo às Estrelas (2019).

No drama Armageddon Time a saga de imigrantes em solo norte-americano volta a ser inspiração. Porém, desta vez com uma visão bem pessoal do diretor. A história que conta tem inspiração em memórias autobiográficas. Gray é, portanto, testemunha e cronista de um tempo e de um cenário que viveu bem de perto. O filme não é exatamente uma autobiografia convencional, mas evoca sentimentos e experiências pessoais de um momento bem específico dos Estados Unidos. Tudo transcorre no ano de 1980, no período que precede o início da Era Ronald Reagan, que tomaria posse como presidente eleito no ano seguinte. Nascido em 1969, Gray, portanto, teria 11 anos de idade nesta época, aparentemente a mesma do garoto protagonista.


Em Nova Iorque a família Graff, descendente de judeus ucranianos, vive no bairro do Queens a utopia que seduz as correntes migratórias dos primeiros anos do século passado: o sonho americano. As atenções da família – pais e avós - estão voltadas ao sucesso social e profissional dos dois filhos menores. Mas as maiores expectativas estão na verdade direcionadas ao caçula da família, o pré-adolescente Michael (Banks Repeta, um achado). Na escola pública onde estuda, Michael faz amizade com Johnny (Jaylin Webb), um jovem negro, filho de família humilde. Apesar das profundas diferenças de origem, ambos desenvolvem uma forte relação de parceria e compartilham sonhos. Michael deseja seguir a carreira de pintor e artista plástico. Johnny quer ser astronauta. Um revelador episódio dramático, porém, coloca em choque a amizade dos garotos e define o futuro de ambos.

A narrativa de Armageddon Time é conduzida pelo ponto de vista do pequeno Michael. É através do seu olhar – ora inocente, ora questionador - que mergulhamos nos conflitos éticos, morais e raciais que marcam sua jornada de amadurecimento. Família, escola e sociedade são forças conflitantes que agem e modelam a personalidade do garoto. Pai e mãe (Jeremy Strong e Anne Hathaway) representam a tradição; o avô (Anthony Hopkins) é o coração, a sabedoria e a sensibilidade; a escola faz o papel da doutrinação, simultaneamente origem do conhecimento formal e da repressão que oprime. Por fim, o meio social, que separa, segrega, pune e destrói sonhos.

O filme de James Gray é uma fábula moral que explora os valores da amizade e questiona os limites da lealdade. A ética está no centro da discussão, que se estabelece a partir do episódio revelador entre os garotos, que traz à superfície o que se esconde debaixo do tapete. Michael e Johnny, em lados opostos da história, representam o microcosmo de uma conjuntura discriminatória que se reproduz desde a origem das sociedades organizadas ocidentais.


As fugas da escola, as contestações aos professores e os pequenos delitos dos garotos protagonistas trazem ecos de François Truffaut, em Os Incompreendidos. A abordagem do cineasta francês foi poética, suave e, em certo nível, até mesmo condescendente. Em Armageddon Time o furo é mais embaixo. O olhar traz nuances e problematiza com mais ênfase as dificuldades das relações sociais na América, à beira da já citada Era Reagan que marcaria fortemente a década seguinte. Porém, a base sob a qual se sustentam Truffaut e Gray é essencialmente a mesma: o sistema educacional não passa de uma “fábrica de salsichas”. Armageddon Time não traz respostas fáceis, e certamente sequer deseja tê-las. É o retrato de uma época, um “ovo da serpente”.


Um pouco da chave para a compreensão do alcance do trabalho de James Gray pode estar na letra da música do The Clash, chamada justamente “Armageddon Time”, presente na trilha sonora. Diz algo mais ou menos assim: Fique por perto não brinque por perto / Esta cidade velha e todos / Parece que eu tenho de viajar / Muita gente não vai conseguir jantar à noite / Muita gente não vai conseguir Justiça esta noite / A batalha está ficando mais quente / Nessa vibração, tempo de Armagedom.

Armageddon Time, mais uma produção da RT Features, do brasileiro Rodrigo Teixeira, é um pequeno grande filme, comovente e intimista, realizado com paixão e sensibilidade.

Assista ao trailer: Armageddon Time


Jorge Ghiorzi / Membro da ACCIRS

janeladatela@gmail.com