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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Ponto Sem Retorno: no fim do mundo


A evolução do cinema pós-apocalíptico reflete os medos coletivos de cada era, moldando o fim do mundo segundo as ansiedades de seu tempo. Se nos anos 1950 a paranoia da Guerra Fria se traduziu no pavor de invasões alienígenas (A Guerra dos Mundos), os anos 1960 materializaram o pavor real da aniquilação nuclear (Dr. Fantástico). Nos anos 1970 o foco migrou para a escassez de recursos e o colapso ambiental (Soylent Green – No Mundo de 2020). Os anos 1980 transformaram essa desolação em um colapso social hiperviolento e anárquico (Mad Max 2). A virada dos anos 1990 trouxe o medo da dependência tecnológica e do apocalipse cibernético (O Exterminador do Futuro 2), cedendo espaço nos anos 2000 ao pavor da paralisia social por infecções em massa (Extermínio). Nos anos 2010, o subgênero se aprofundou na ansiedade climática extrema e no colapso sistêmico (Expresso do Amanhã), culminando nos anos 2020 em narrativas pós-pandêmicas pautadas pelo isolamento, pela derrocada da verdade e pela ruptura institucional (The Last of Us). É justamente no cruzamento do trauma biológico recente da Covid-19 com a iminência do colapso climático irreversível que se situa Ponto Sem Retorno (The Dog Stars), no qual Ridley Scott (em seu 30º longa-metragem) sintetiza esses medos acumulados para explorar uma faceta do extermínio da humanidade. Não no contexto do coletivo global, mas no microcosmo de um drama de sobrevivência íntimo.

Adaptação do romance homônimo de Peter Heller, o filme contrasta a realidade devastadora de uma catástrofe biológica global com o sofrimento silencioso da solidão. Em um aeroporto abandonado, o mecânico e piloto de monomotor Hig (Jacob Elordi) tenta preservar o que restou de sua humanidade a partir da profunda cumplicidade com seu velho cão, Jasper, elo vital com o passado e sua principal âncora afetiva. Seu outro parceiro nessa rotina é Bangley (Josh Brolin), um veterano ex-militar bélico e paranoico. Essa frágil dinâmica se rompe quando Hig capta um misterioso e distante sinal de rádio. Motivado pela perspectiva de encontrar outros sobreviventes, ele decide voar para além do perímetro de segurança rumo ao desconhecido. Na jornada, acaba descobrindo uma fazenda isolada onde vivem Pops (Guy Pearce) e sua filha, Cima (Margaret Qualley). Superadas a desconfiança inicial e a paranoia do contágio, eles percebem que a única maneira de garantir a própria sobrevivência é unindo forças em busca do bem comum.


Assumindo o papel do protagonista após a saída de Paul Mescal, originalmente escalado para a produção, Jacob Elordi conduz o filme sob um tom predominantemente melancólico, sombrio e fatalista. Essa atmosfera reflete o estado de espírito de Hig, que carrega no íntimo um sentimento de culpa irreparável. Em vez de entregar a típica aventura de herói pós-apocalíptico, a narrativa prefere focar no peso psicológico de um homem incapaz de se perdoar pelas escolhas do passado. Cada atitude no presente soa menos como um ato de bravura e mais como uma tentativa dolorosa de expiar decisões que ele sabe não terem mais volta. 

Em meio a esse drama contido, o filme insere uma sequência inesperada que destoa fortemente do tom vigente. Após a fuga dos personagens do ataque de um bando hostil, eles chegam a um aeroporto de estética retrô-futurista comandado por uma alucinada comissária de bordo, interpretada com vigor mórbido e voz grave por Allison Janney. O local abriga uma espécie de sociedade alternativa formada por uma elite hedonista e decadente. Quando situado nesse espaço, Ponto Sem Retorno ganha finalmente alguns minutos de tensão genuína e estranhamento inquietante.

Contudo, esse sopro de inventividade é sufocado pelas poucas sequências de ação, todas por demais genéricas e burocráticas para o histórico do diretor. Seria natural esperar a energia pulsante e a decupagem visceral de obras como Falcão Negro em Perigo, mas as cenas aqui parecem cumprir apenas uma cota protocolar de adrenalina. Assim que cessam, a narrativa recai em uma calmaria desprovida de urgência, acomodando-se na busca óbvia pela sobrevivência em um mundo já em ruínas.


Para completar esse tom frio e distante, o romance simplesmente não engrena quando deveria dar as cartas no final. Jacob Elordi e Margaret Qualley têm uma química morna, para não dizer nula, e a gente não embarca pra valer naquele afeto de ocasião em momento algum. O que deveria ser a grande faísca de esperança e recomeço da história vira só mais um momento apático, deixando uma estranha sensação de indiferença diante de uma obra que observa o fim do mundo, mas não consegue fazer a gente sentir nada por ele.

Assista ao trailer: Ponto Sem Retorno


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela