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quarta-feira, 24 de junho de 2026

Supergirl: jovem, rebelde e “humana”

 

Quatro décadas após o fracasso do longa de 1984, estrelado por Helen Slater, e da breve aparição em The Flash (2023), interpretada por Sasha Calle, a prima do Superman ganha finalmente uma nova oportunidade para um merecido protagonismo. A personagem agora ressurge em grande estilo para consolidar de vez o seu espaço no Universo DC. No período de produção do longa Supergirl, dirigido por Craig Gillespie (Cruella e Eu, Tonya), a revelação do nome da protagonista foi motivo de polêmica e críticas junto à base de fãs. A alegação era de que a selecionada Milly Alcock destoava muito do perfil que os quadrinhos apresentavam. Passado o burburinho de pré-lançamento, pode-se afirmar agora que a escolha da atriz foi um dos grandes acertos da produção. Ela possui o carisma e a energia necessários para encarnar uma figura alinhada aos tempos atuais, distante de estereótipos previsíveis de uma heroína tradicional, justamente por se revelar mais impulsiva e vulnerável, características que Milly acrescenta com naturalidade ao filme.

Ainda que Supergirl não seja, na prática, um filme de origem, o longa revisita os fatos que explicam o passado da heroína e sua chegada à Terra. O recorte proposto pela obra foca essencialmente na jornada pessoal da personagem em busca de respostas sobre seu lugar nesse novo mundo. Diferente de seu primo Kal-El / Clark Kent, a jovem Kara Zor-El não parece muito interessada em fazer do nosso planeta a sua morada, ainda que aqui, banhada pelo Sol amarelo, tenha os benefícios de superpoderes quase ilimitados. Enquanto passa por esse dilema tipicamente juvenil de insatisfação com tudo e com todos, Kara vive um período de rebeldia, entregue à bebida, noitadas em bares interplanetários e à total falta de perspectiva. Enfim, à beira de uma crise existencial. É nesse contexto que começa a ação de Supergirl, justamente no dia em que ela comemora seus 23 anos de idade, solitária e isolada em um planeta qualquer, ao lado apenas do cão Krypto, seu fiel companheiro.


Quando menos espera, o destino cruza o caminho de Kara, conduzindo-a para sua verdadeira jornada de autodescoberta e para o início de seu arco dramático. Como qualquer personagem rebelde, a princípio ela renega o chamado para a ação, que surge na figura de uma garota órfã disposta a tudo para convencer a heroína a ajudá-la em sua missão de vingança pelo assassinato dos pais. O antagonista da história é o mercenário Krem das Colinas Amarelas, que, juntamente com seu grupo de bandoleiros, age como pirata espacial. A hesitação da heroína chega ao fim quando o perigo se torna pessoal demais para ser ignorado, atingindo Krypto, o cão que representa seu último elo com o planeta natal. 

Ao longo da narrativa o Superman (David Corenswet) surge algumas vezes sem efeito direto no desenrolar da história, meio que fazendo o papel de mentor da prima, sempre demonstrando preocupação com seu bem-estar. Nessas pequenas participações o filme não perde a oportunidade de reforçar a diferença de personalidade entre os dois. Enquanto o herói de Metrópolis encarna uma espécie de "tiozão careta", a jovem Supergirl é retratada como a garota descolada e independente.


Nesta aventura solo da heroína o vilão, Krem, é por demais mundano, sem a dimensão épica comum nas HQs e em suas adaptações cinematográficas. Em Supergirl o adversário é um bandoleiro espacial cujos objetivos não passam do banditismo predatório e da subjugação de jovens que mantém aprisionadas. Convenhamos, uma pequenez moral que contrasta com a grandiosidade cósmica que costuma cercar os grandes antagonistas do gênero. Para completar a galeria de coadjuvantes pouco memoráveis, há ainda o Lobo, interpretado por Jason Momoa. Mistura de caçador de recompensas intergaláctico bruto, debochado, canastrão e motoqueiro espacial, o autêntico anti-herói acaba se mostrando pouco significativo para a narrativa. Sua função parece ser apenas garantir um nome de peso no pôster e, de quebra, dividir o protagonismo com a Supergirl no desfecho. Talvez sua existência se justifique melhor nas sequências que certamente estão a caminho.

Além do vilão Krem e do anti-herói Lobo, cujos visuais remetem diretamente aos personagens de Mad Max, Supergirl emula, de modo geral, a estética das aventuras de Max Rockatansky e Furiosa nos desertos australianos. Essa escolha visual não ocorre por acaso, visto que o diretor Craig Gillespie é australiano e inclusive reconhece a influência direta. No entanto, a semelhança com a saga de George Miller para por aí. Enquanto a franquia Mad Max extrai sua força de um deserto solar e de uma luminosidade quase incômoda, que realça a crueza da ação, Supergirl ironicamente caminha no sentido oposto ao adotar uma fotografia sombria e escura demais. Essa escolha estética reduz a energia da produção e sabota a visualização plena das sequências de combate. Em vez do impacto visceral do sol do deserto, o espectador é entregue a uma penumbra digital que transforma momentos de grande adrenalina em borrões confusos, onde a própria coreografia das lutas se perde na falta de contraste.

No saldo final, Supergirl se sustenta muito mais pela força magnética de sua protagonista do que pelo conjunto de suas escolhas estéticas e narrativas. Se o roteiro derrapa ao entregar antagonistas desinteressantes e a direção erra a mão ao sufocar a ação sob uma penumbra digital desnecessária, a performance vulnerável e enérgica de Milly Alcock garante o coração da obra. Ao humanizar Kara Zor-El através de suas crises e rebeldias juvenis, o filme consegue atingir seu principal objetivo, provando que a Garota de Aço não precisa mais viver à sombra do primo famoso ao fincar, com autoridade, os seus pés no futuro do Universo DC.

Assista ao trailer: Supergirl


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


sexta-feira, 11 de outubro de 2024

Super/Man – A História de Christopher Reeve: retrato de um herói

Uma ironia dolorosa resume a vida de Christopher Reeve. O ator que construiu o mito em torno de si ao interpretar um super-herói com poderes praticamente ilimitados, dentre eles a capacidade de voar, teve seu destino final em vida restrito e imobilizado em uma cadeira de rodas, com limitadíssima capacidade motora. O homem de aço do cinema encontrou sua kriptonita na vida real ao sofrer a trágica queda de um cavalo em 1995.

Vinte anos após sua morte a trajetória do ator é retratada no emocionante e sensível documentário Super/Man: A História de Christopher Reeve (Super/Man: The Christopher Reeve Story, 2024), uma realização da dupla Ian Bonhôte e Peter Ettedgui que teve sua primeira exibição mundial no Sundance Film Festival, em janeiro deste ano. Após a repercussão extremamente positiva na audiência, a produção atraiu a atenção dos grandes players do mercado. Os direitos de distribuição foram adquiridos pelas gigantes Warner, DC Studios, HBO e CNN Films, o que garante uma grande circulação e visibilidade da obra.


O filme faz uma ampla crônica da carreira artística de Christopher Reeve, desde os primeiros tempos de ator iniciante, na escola de teatro, passando por sua ascensão à galeria dos mais renomados atores de Hollywood em sua época, até seus últimos momentos de vida, em 2004. Dentro desta trajetória destacam-se os dois momentos mais significativos da sua vida pública: a escolha para interpretar o disputadíssimo papel de Superman, no filme de 1978, e o terrível acidente que o deixou tetraplégico até o fim da vida. Estes dois episódios formam o eixo narrativo sob o qual se constrói o documentário.


O roteiro de Super/Man é constituído de imagens de arquivo, registros de vídeos domésticos, áudios do próprio ator e entrevistas com familiares e amigos mais íntimos. Este material é utilizado pelos realizadores de maneira não cronológica. A edição propõe saltos narrativos que levam o espectador alternativamente para trás e para a frente, em termos de linha do tempo da vida de Christopher Reeve. Esta técnica proporciona um dinamismo que imprime um ritmo que distancia o documentário de um tradicional registro jornalístico.


O ambiente familiar do ator, antes e após o acidente, também é bastante explorado em Super/Man, com participação dos filhos, já adultos, em depoimentos emocionados e tocantes, relembrando a figura do pai com o qual só conviveram quando ainda eram crianças. As duas companheiras que Christopher Reeve teve também registram sua presença, em espacial Dana Reeve, com quem estava casado à época do acidente, e que ficou a seu lado até os últimos dias. Juntos criaram a “Fundação Christopher & Dana Reeve”, que atua no estímulo à pesquisa científica visando a cura ou à melhoria da qualidade de vida das pessoas com paralisia. Atualmente os filhos estão à frente na gestão da Fundação, ainda ativa e influente.


As relações de Christopher Reeve com outros artistas, diretores e produtores de Hollywood revelam um ator com livre trânsito e muita consideração por parte de seus colegas de trabalho. Sabe-se que este tipo de amizade profissional costuma ser superficial e motivada por interesses momentâneos. No entanto, uma amizade muito intensa e verdadeira surgiu entre Christopher Reeve e Robin Williams. Ambos foram colegas de apartamento nos tempos das vacas magras, quando tentavam uma oportunidade em grandes produções. A ascensão dos dois foi simultânea e fortaleceu um poderoso elo de cumplicidade. Super/Man abre espaço para contar um pouco desta amizade verdadeira, que inclusive se intensificou após o acidente. Robin Williams, que nunca abandonou Christopher Reeve, esteve sempre a seu lado, tentando levar alegria e leveza à vida do ator quando a escuridão mostrava sua assustadora face. Tragicamente, exatos dez anos após a morte do amigo, o próprio Robin Williams deu fim à sua vida. O documentário não trata diretamente deste tema, embora faça uma breve e contundente referência em uma fala da atriz Susan Sarandon.


Super/Man não foge das armadilhas sentimentais que filmes deste tipo enfrentam. Há que se convir, no entanto, que não haveria de ser diferente, dada a natureza da personagem retratada e seu devastador fim de carreira e morte. Os realizadores evitam a manipulação fácil das emoções, ainda que seja inevitável o apelo às lágrimas em determinadas passagens, como os discursos de despedida de Robin Williams e Dana Reeves. O paralelo entre o homem e o mito, o ator e o super-herói, estão constantemente presentes na abordagem, muito bem sintetizado no jogo de palavras criado para o título original: Super/Man. O documentário é um registro necessário, honesto e sincero, que confirma que os grandes confrontos não ocorrem apenas na ficção dos duelos entre super-heróis e vilões dos quadrinhos. Grandes combates também são travados vida real, na luta eterna entre o ser humano e a inevitabilidade do seu fim. Como homem e como super-herói, Christopher Reeve foi gigante em todas suas batalhas.

Assista ao trailer: Super/Man – A História de Christopher Reeve

 

Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela