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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Zona Zero: colônia de zumbis

 

O cinema sul-coreano contemporâneo domina o hibridismo de gêneros com uma maestria exemplar, algo nitidamente visível em obras como Kingdom, #Alive e no recente Hope: O Primeiro Impacto. Essa reconhecida habilidade em unir o terror à ação desenfreada ganha um novo capítulo em Zona Zero (Colony), produção que reafirma a vitalidade do país no cinema de gênero ao oferecer uma instigante reinvenção da figura do zumbi. A direção é de Yeon Sang-ho, que já demonstrou sua habilidade para o terror apocalíptico em filmes como Invasão Zumbi e Invasão Zumbi 2.

A trama de Zona Zero acompanha um grupo de sobreviventes encurralado no interior de um grande shopping center após o eclodir de um surto biológico devastador. No centro dessa luta pela sobrevivência está uma protagonista determinada, movida por uma jornada de vingança contra os responsáveis pela tragédia. Conforme a ameaça se revela mais complexa do que um simples vírus incontrolável, os contaminados passam a agir como “zumbis” articulados sob o instinto de uma colônia de formigas em constante evolução. Todos funcionam como um organismo único, interligados por um comando central e por uma comunicação coletiva.

A figura do zumbi, estabelecida em seu conceito moderno a partir da visão seminal de George A. Romero no final dos anos 1960 em A Noite dos Mortos-Vivos (1968), é atualizada em Zona Zero para as ansiedades do século XXI. Aqui, o monstro deixa de ser apenas uma entidade fantástica e passa a se materializar como o resultado de falhas de contenção científica e militar. Essa abordagem dialoga diretamente com o trauma coletivo pós-COVID-19 e com a paranoia urbana diante da ameaça constante de bioterrorismo e surtos epidêmicos em metrópoles densamente povoadas.

A decisão de ambientar grande parte do primeiro ato em um shopping center remete diretamente ao clássico Despertar dos Mortos (Dawn of the Dead, 1978), também de Romero. O espaço do consumo funciona como um ecossistema simbólico para o zumbi moderno: corpos desprovidos de individualidade perambulando por corredores de lojas, movidos pelo impulso automatizado de devorar.

Ao transformar esse "templo da civilidade", que representa o ápice do conforto burguês e do capitalismo urbano, em um cenário de carnificina e confinamento, o filme expõe a fragilidade da ilusão de segurança vendida pelo consumo. Surge então uma ironia trágica ao observar os personagens lutando pela vida cercados por vitrines repletas de bens supérfluos, como roupas de grife, eletrônicos e cosméticos, que perdem instantaneamente todo o seu valor. Diante do colapso, a única mercadoria vital passa a ser a própria sobrevivência e o espaço seguro.

Para além de uma crítica subliminar ao consumo, Zona Zero insere ainda uma camada de comentário social ao retratar o exército de infectados. Os monstros não agem apenas por instinto cego, mas são comandados por uma única mente e uma única visão. Esse dispositivo espelha a prática do messianismo político e religioso. Trata-se de uma analogia que reflete, com ironia, o fenômeno da imunidade cognitiva recorrente na contemporaneidade, no qual a supressão do livre-arbítrio cede lugar ao controle absoluto das massas sob um único comando totalitário.

No aspecto estrutural e dramático, o longa se sustenta sobre a motivação da vingança, elemento que se tornou marca registrada do cinema asiático contemporâneo, funcionando com a mesma eficiência nos dramas autorais e nas superproduções comerciais. Em Zona Zero a liderança e a agenda feminina conduzem o motor da narrativa. As personagens femininas não ocupam a posição passiva de meras sobreviventes a serem resgatadas. Pelo contrário, situam-se no centro e na liderança da ação. A busca por justiça se conecta perfeitamente ao arco de vingança, transformando o protagonismo feminino na força ativa responsável por confrontar o caos e tomar as rédeas do destino frente ao colapso da sociedade.

Ao reinterpretar o mito dos zumbis para as novas gerações sob a ótica dos traumas sanitários e ideológicos do século XXI, Zona Zero oferece uma proposta vibrante e contemporânea. À sua maneira, o filme entrega uma espécie de versão apocalíptica de Duro de Matar, concentrando a narrativa no espaço confinado de um grande edifício isolado biologicamente pelo risco de contaminação do restante da população. Ainda que deixe a desejar em profundidade emocional e temática, a produção compensa satisfatoriamente ao apostar em um ritmo eletrizante e em sequências de ação constante e desenfreada. Zona Zero é um exemplar eficiente, divertido e satisfatório do cinema de gênero sul-coreano.

Assista ao trailer: Zona Zero


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela