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terça-feira, 24 de março de 2026

Devoradores de Estrelas: uma jornada épica e íntima

 

Os livros de Andy Weir são conhecidos por reunir, com rara habilidade, precisão científica e entretenimento de primeira linha. Outro atrativo de sua escrita é a construção extremamente cinematográfica, o que facilita adaptações sem grandes traumas na transposição de mídia. Foi o caso de Perdido em Marte (2015) e agora se repete com Devoradores de Estrelas (Project Hail Mary, 2026), reafirmando a força de Weir na cultura pop. A adaptação de outro livro do autor, Artemis, segue em desenvolvimento há anos, sem previsão imediata de lançamento

A história acompanha Ryland Grace (Ryan Gosling), um professor de ciências e ex-biólogo que desperta a bordo de uma espaçonave sem qualquer memória de quem é ou de como chegou ali. Aos poucos, ele descobre que é o único sobrevivente de uma missão desesperada: salvar o Sol (e, por consequência, a Terra) de um organismo microscópico que está consumindo a energia da nossa estrela. O que começa como uma jornada solitária ganha novas nuances quando Grace encontra “Rocky”, um alienígena de outro sistema solar que enfrenta o mesmo problema. apocalíptico.

Mais do que um épico espacial, Devoradores de Estrelas fundamenta-se como uma jornada emocional, embora esse foco no "micro" jamais limite sua escala grandiloquente. A direção de Phil Lord e Christopher Miller (realizadores de Uma Aventura Lego e criadores do Aranhaverso) sustenta uma transição equilibrada entre o espetáculo e a introspecção. Ao mesmo tempo em que a narrativa mira a vastidão sublime e os perigos tecnológicos do espaço, o roteiro de Drew Goddard (de Perdido em Marte) ancora o espectador em dilemas morais e laços pessoais. Esse contraste entre a imensidão do vazio e a densidade dos afetos é o que confere ao filme sua ressonância dramática, evitando que ele se torne apenas mais um espetáculo de efeitos visuais.

As questões científicas abordadas apresentam complexidade considerável, mas são habilmente compensadas pelo roteiro, que abre mão de exposições verbais densas. Em vez disso, prefere exibir conceitos por meio de experimentos práticos e animações lúdicas. Nesse aspecto, o filme se distancia de abordagens cerebrais e áridas, optando por um tom mais amigável e acessível. Essa leveza é sustentada pelas atuações do elenco principal. Ryan Gosling entrega um protagonista extremamente carismático e totalmente à vontade, equilibrando o medo da morte com a curiosidade científica. Ele está perfeito como o herói involuntário e relutante. Já Sandra Hüller (de Anatomia de uma Queda) brilha em uma composição contida, com sua personagem durona apenas na superfície, revelando camadas de responsabilidade e sacrifício conforme a trama avança.

A relação amável e amistosa entre Grace e Rocky é, sem dúvida, o maior trunfo do longa. Rocky se mostra um personagem empático, evocando a pureza de clássicos como E.T. – O Extraterrestre. O filme, inclusive, abraça seu caráter autoconsciente ao referenciar a franquia Rocky, de Stallone (que inspirou o nome do alienígena), e ao homenagear as notas musicais de Contatos Imediatos do Terceiro Grau na interação inicial entre os seres. No Brasil, o título original Project Hail Mary (Projeto Ave Maria) foi deixado de lado em favor de Devoradores de Estrelas, possivelmente para evitar uma associação religiosa direta. No entanto, a essência do termo, que remete a uma última e desesperada missão de fé baseada na ciência e no imponderável, permanece pulsando no centro da narrativa.

O filme, embora por vezes exagere no humor em passagens que pediam maior gravidade, nunca perde seu caráter otimista. É essa leveza, ancorada pelo carisma magnético de Gosling e pela presença austera, porém vulnerável, de Hüller, que humaniza a frieza do espaço sideral. Em um gênero que frequentemente se perde entre o niilismo cerebral e o espetáculo vazio, Devoradores de Estrelas prova que a ficção científica mais eficaz é aquela que utiliza a vastidão do cosmos apenas como moldura para examinar a densidade dos laços que nos tornam humanos. O resultado deste acerto é mensurável nas bilheterias, que registraram nos primeiros dias de exibição mais de US$ 150 milhões, consolidando o longa como o maior êxito financeiro de 2026 até o momento. É a prova de que o público anseia por histórias que, além de nos fazer olhar para as estrelas, nos façam sentir o que significa ser humano.

Assista ao trailer: Devoradores de Estrelas


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


quarta-feira, 19 de julho de 2023

Barbie: uma fábula feminista

 

Lançada pela Mattel em 1959, a Barbie foi a primeira boneca a representar uma mulher adulta. Até então a indústria só produzia bonecas representando bebês, estimulando nas meninas crianças a crença de que o papel de mãe seria o único destino possível para as mulheres na vida adulta – a propósito, esta ideia é brilhantemente mostrada na criativa sequência de abertura. A chegada da Barbie foi um sucesso absoluto, uma revolução que mudou o mercado para sempre. A grande sacada viria um pouco mais adiante, quando a Mattel lançou as diversas versões da Barbie, com seus respectivos acessórios: a médica, a executiva, a jogadora de tênis, a bailarina, a top model e outras tantas. Um universo próprio foi criado e fechado em torno das Barbies, inclusive com direito a um “namorado” de ocasião, o Ken.

É exatamente neste ponto da História que inicia a estória da versão cinematográfica live-action, Barbie (Barbie, 2023), dirigida pela cult e descolada Greta Gerwig (Francis Ha, Lady Bird e Adoráveis Mulheres), com roteiro escrito em parceria com o companheiro Noah Baumbach.


O dia amanhece na Barbilândia, o mundo perfeito onde vive a bela Barbie (Margot Robbie). O sol a pino é um convite para ir à praia, curtir, rir e dançar com as amigas, as outras “Barbies”. Enquanto elas se divertem pra valer, como se não houvesse amanhã, Ken (Ryan Gosling), e os demais “Kens”, ficam fazendo poses exibicionistas para atrair a atenção das meninas. Esse era um dia normal na Barbilândia, até que o inesperado acontece. Nossa heroína Barbie descobre, para seu espanto absoluto, que algo profundamente errado não está certo, quando surgem alguns pequenos probleminhas mundanos em seu corpinho irretocável. Aconselhada pela boneca “doida” do pedaço, Barbie decide sair de Barbilândia e partir para o nosso mundo real em busca da solução para seus problemas. À tiracolo, o vaidoso Ken embarca também nessa viagem. O que se imaginava acontece: os dois mundos, com suas realidades e regras muito diferentes, colidem e o caos se instala.


A Barbie apresentada por Greta Gerwig é uma Barbie pós-moderna, como pede os tempos revisionistas atuais. Ainda que em seus primeiros momentos a personagem reproduza modelos tradicionais de comportamento, a evolução da consciência da boneca é o grande arco dramático a que o filme se propõe. O mesmo ocorrendo com Ken, que inicialmente reforça o estereótipo machista e patriarcal, até a esperada desconstrução da figura masculina.


Sim, Barbie é uma produção essencialmente feminina e feminista, com uma pegada crítica mordaz, mas sem abrir mão da leveza e do humor, em favor de uma agenda que está longe de ser panfletária. Trata-se de um grande produto da indústria – com o ônus e o bônus desta condição - mas o recado está lá, explícito na tela, para quem quiser ver. A lamentar que o público infantil, que deverá lotar as salas de cinema, não tenha ainda o alcance necessário para a compreensão plena das referências e do posicionamento político e social proposto pelo filme.

Barbie acerta em cheio na concepção visual, na estética e na dinâmica das personagens, que transforma um “mundo de boneca” em uma divertida e multicolorida aventura live-action com gostinho de sessão da tarde.

Assista ao trailer: Barbie


Jorge Ghiorzi / Membro da ACCIRS

janeladatela@gmail.com