segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

"Cleópatra": O filme que mudou Hollywood


O cinema norte-americano, particularmente aquele produzido em Hollywood, passou por um abalo sísmico no início dos anos 60, cujas consequências são percebidas até hoje. Naquele tempo ainda vigorava o Star System, o formato de produção que jogava todas as fichas no poder sedutor das grandes estrelas do cinema, que arrastavam multidões aos cinemas. Os filmes eram produzidos em função de um determinado ator ou atriz. As histórias e roteiros eram meros pretextos para reafirmar o brilho dos grandes mitos do cinema, que então reinavam absolutos.

Foi dentro deste conceito que a 20th Century Fox concebeu uma das maiores produções de Hollywood, até então: Cleópatra (lançado em 1963). A grande estrela do projeto era Elizabeth Taylor. Em valores corrigidos o filme teria custado mais de 400 milhões de dólares (alguns pesquisadores afirmam que poderia ter chegado próximo aos 600 milhões). Enfim, o fato é que a produção do filme (iniciada em 1961) foi uma sucessão de desastres, provocados por um gerenciamento descontrolado, decisões equivocadas e egos inflados.


O primeiro erro estratégico da produção foi filmar na Inglaterra. Gigantescos e faraônicos (!) cenários foram construídos, mas, não contavam com os maus humores da natureza. Chuvas constantes e vendavais teimavam em destruir os sets de filmagens, que eram constantemente reconstruídos. Atrasos no cronograma de filmagens eram frequentes, e a folha de pagamentos só aumentava, pois o elenco e extras, contratados para trabalharem poucos dias, ou semanas, eram remunerados indefinidamente, por semanas e semanas, até que as condições de filmagem se restabelecessem.

Foi em Cleópatra que o recorde de cachê de 1 milhão de dólares por filme foi batido. Esse foi o valor do contrato de Elizabeth Taylor, que ainda ganhava mais 10 mil dólares por semana de filmagem. Então, como desgraça pouca é bobagem, em sua temporada na fria e úmida Inglaterra, Miss Taylor contraiu uma pneumonia e ficou várias semanas internada: Resultado? O estúdio desembolsava rios de dinheiro para manter a atriz sob contrato. Afinal, ela valia seu peso em ouro, e seria o grande apelo comercial na promoção do filme. Não seria, portanto, uma despesa, mas sim um investimento.


Bem, com quase tudo dando errado durante as filmagens, incluindo a troca do diretor Rouben Mamoulian por Joseph L. Mankiewicz, a produção se tornou um tormento para a Fox, que temia a falência da companhia por não conseguir conter a sangria das despesas. Para completar o pesadelo, nos sets de filmagem outra bomba estava prestes a estourar: o caso de Elizabeth Taylor e Richard Burton (que interpretava Júlio César). Ambos casados, eles engataram um romance secreto nos bastidores das filmagens, fato este que fazia a delícias da imprensa que cobria a produção. Ficou clássico o episódio que “revelou” de uma vez por todas que algo mais sério havia entre os dois. Durante a filmagem de uma sequência que reunia Taylor e Burton e acabava com um beijo, após o término da tomada o diretor Mankiewicz gritou: “Corta”. Mas o casal apaixonado seguiu se beijando como se não houvesse amanhã, alheios ao mundo espantado ao redor. Atracados num beijo, que nada tinha de técnico, o casal selou o romance.

Um mito equivocado com o filme Cleópatra persiste. A produção historicamente foi taxada como um fracasso absoluto de bilheteria. Mas isto não é correto. Mesmo não sendo um sucesso estrondoso, a produção da Fox não foi tão mal em faturamento. Ao longo do tempo, após as reprises, a exibição na TV e os lançamentos em home vídeo, o filme acabou por recuperar a quase totalidade do investimento do estúdio.


Hoje, olhando com a perspectiva do tempo, Cleópatra representou o fim de um ciclo, de uma forma de encarar o cinema. O filme foi o paradigma de uma velha forma de produção que logo ali adiante, mais para o final dos anos 60, seria sepultada de vez quando chegou a nova geração de cineastas norte-americanos (a primeira geração que estudou cinema). Filmes inovadores como Uma Rajada de Balas (Bonnie & Clyde, 1967), dirigido por Arthur Penn, e A Primeira Noite de um Homem (1967), de Mike Nichols, mostravam um novo caminho, daí surgindo um dos períodos mais vigorosos, criativos e promissores do cinema dos EUA, o New American Cinema dos anos 70.

(Texto originalmente publicado no portal "Movi+" em janeiro de 2015)


Jorge Ghiorzi

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