


Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
Os anos 90 foram marcados pela proliferação das boy bands, fenômeno que conquistou o mundo da música e deixou um legado nostálgico. Algumas dessas bandas alcançaram o topo das paradas musicais e lotaram estádios ao redor do globo, tornando-se ícones de uma geração. Hoje, são lembradas com carinho por fãs que, em muitos casos, já são adultos e até pais de família. Grupos como Backstreet Boys, *NSYNC, New Kids on the Block e One Direction viveram o auge do sucesso, mas também enfrentaram o inevitável declínio que acompanha a fama meteórica.
As meninas também tiveram seu espaço nesse cenário. No Reino Unido, as Spice Girls surgiram como um furacão cultural, redefinindo o conceito de girl power e rivalizando em popularidade com outro fenômeno britânico que conquistou o mundo: o Take That. Foi nesse contexto de ascensão e queda, de glória e desafios, que histórias como a retratada no filme Better Man ganham vida, oferecendo um olhar sobre os bastidores da fama e os sacrifícios que ela exige.
Artista mais destacado do Take That em sua formação original, Robbie Williams ganhou uma projeção que inevitavelmente incomodou a vaidade dos demais participantes do grupo. Então, o inevitável aconteceu: Robbie foi gentilmente convidado a sair. Foi nesse momento que começou a fase de maior sucesso de sua carreira, quando ele se lançou como cantor e compositor solo. Rapidamente, tornou-se o maior astro da música britânica e um dos maiores nomes da cena pop mundial. A cinebiografia Better Man – A História de Robbie Williams (Better Man, 2024) conta essa trajetória de uma maneira que você nunca viu, recriando o artista como um macaco, e não como um ser humano.
À primeira vista, a história de Robbie Williams parece seguir um arquétipo familiar no universo das cinebiografias de superastros da música: a ascensão meteórica, os excessos do estrelato, as batalhas contra os vícios e a busca por redenção. Em outras mãos, essa narrativa poderia resultar em um filme trivial e previsível, mais um retrato convencional de fama e decadência. No entanto, Better Man escapa dessa armadilha ao introduzir uma inovação audaciosa: a substituição do artista de carne e osso por um macaco gerado por CGI. Essa escolha surreal e simbólica não apenas desafia as expectativas do público, mas também liberta a narrativa dos limites convencionais do gênero.
Consta que a ideia de utilizar a figura de um macaco surgiu nos momentos iniciais do projeto, quando o realizador questionou Robbie Williams sobre qual animal melhor o representava ou com qual ele mais se identificava. O resultado dessa pergunta está na tela. O macaco, como uma figura fantástica e quase onírica, permite explorar a psique de Williams de maneira mais livre e metafórica, transformando a cinebiografia em uma experiência visual e emocional que transcende a mera reconstituição de fatos. É como se o filme dissesse que, para entender a complexidade de um ícone pop, é necessário ir além da realidade — adentrar o reino da fantasia, onde os conflitos internos e as verdades mais profundas podem ser revelados de forma mais vívida e impactante.
O conceito que sustenta Better Man é, ao mesmo tempo, inovador, desafiador e disruptivo. Em um gênero frequentemente marcado por narrativas que glorificam o ego e a mitologia pessoal de artistas famosos, este filme opta por um caminho inverso e surpreendente. Em vez de mergulhar na exposição convencional da imagem pública de Williams, o filme suprime a estética e o simbolismo tradicionalmente associados ao artista. A ausência de sua figura reconhecida — seja por meio de imagens de arquivo ou reconstituições — é uma escolha audaciosa que convida o espectador a refletir sobre a persona versus a pessoa, o mito versus a realidade. Essa abordagem não apenas desafia as expectativas do público, mas também expande os limites do que uma cinebiografia costuma ser, priorizando a introspecção e a humanidade em detrimento de uma simples celebração do estrelato.
Os números musicais e a exploração do universo interior de Robbie Williams proporcionam os momentos mais memoráveis e visualmente espetaculares de Better Man. Aqui, o adjetivo "espetacular" se justifica plenamente: trata-se de uma experiência que encanta o olhar, com um sedutor espetáculo de cores, luzes, movimento e encenação. Essas sequências, repletas de energia e inventividade, ecoam as origens britânicas do artista, remetendo em certa medida ao cinema lisérgico e psicodélico do “malucão” conterrâneo Ken Russell, um dos cineastas mais ousados e visionários da Inglaterra. Não é difícil traçar uma conexão entre a estética exuberante de Russell — conhecido por suas narrativas alucinadas e visuais extravagantes em filmes como Tommy e Os Demônios — e a abordagem do diretor australiano Michael Gracey, que parece ter bebido dessa fonte para criar cenas que transcendem a simples biografia e mergulham no universo sensorial e emocional de Williams.
O mergulho de Robbie Williams em sua biografia, apesar de sua condição de produtor executivo e colaborador do roteiro, está longe de ser um mero exercício de ego trip ou uma celebração autocomplacente de sua carreira. Seu propósito transcende a simples glorificação pessoal, revelando-se mais profundo e introspectivo. Williams parece genuinamente disposto a se expor diante das câmeras com uma honestidade rara, na plenitude de sua humanidade e vulnerabilidade. Ele não hesita em revelar suas falhas de caráter, suas fraquezas e os momentos de derrocada causados pelos vícios que quase destruíram sua vida e carreira. Better Man funciona, assim, como uma espécie de sessão de terapia coletiva, na qual o artista se submete a uma autoanálise pública, sem censura ou medo de julgamentos. Essa abordagem corajosa não apenas humaniza Williams, mas também convida o público a refletir sobre suas próprias lutas e imperfeições, transformando o filme em um espelho tanto para o artista quanto para quem o assiste.
Apesar de Better Man ser uma cinebiografia não convencional, estrelada por um personagem ‘macaco’, esse fato não exige demasiada suspensão de descrença por parte da plateia. Tudo flui com naturalidade e incrível verossimilhança. Não há estranhamento, e o conceito é rapidamente aceito, integrando-se naturalmente à narrativa. A essência do filme está em outro local: na análise fria e humana dos desafios que uma vida de fama e sucesso exigem de um artista. Original e ousado, Better Man é um espetáculo. E isso é tudo que poderíamos querer.
Assista ao trailer: Better
Man – A História de Robbie Williams
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
Adaptado de um conto de Stephen King, O Macaco (The Monkey), com direção de Osgood Perkins (do recente Longlegs), é uma experiência cinematográfica que mergulha o espectador em uma narrativa que oscila entre o horror visceral, o humor negro e uma reflexão sobre a morte e o trauma herdado. Perkins constrói uma montanha-russa emocional, capaz de provocar risos, choques e sim, uma diversão insana.
A cena de abertura já é um exemplo da forma como o filme pretende estabelecer sua atmosfera. Um piloto de avião sério e confiável, introduz a ameaça do macaco com uma tensão genuína. A sequência é eletrizante: alguém é morto e o piloto se envolve em uma batalha feroz com o brinquedo amaldiçoado, gritando na noite enquanto o macaco revela sua natureza maligna. Essa introdução, repleta de energia bizarra, prepara o terreno para o que está por vir, deixando o espectador com o queixo no chão antes mesmo do título aparecer na tela.
Quando a história avança para a Nova Inglaterra dos anos 1990, o macaco ressurge, desta vez para assombrar os filhos gêmeos do piloto, Hal e Bill Shelburn, interpretados por Theo James em um duplo papel. Aqui, o filme explora o fino véu entre a vida e a morte, usando o brinquedo como uma metáfora para o trauma familiar. Hal e Bill representam duas formas distintas de lidar com a perda e o medo: Hal, mais introspectivo e fechado, luta para se conectar com seu filho Petey (Colin O'Brien), enquanto Bill é o irmão mais extravagante e caótico, cuja paranoia e desenvolvimento interrompido são retratados com uma dose de humor negro. A escolha de figurino de Bill, inspirada no Superman, é um toque genial que adiciona camadas ao personagem, ao mesmo tempo que provoca risos e reforça a fragilidade humana diante da morte.
No entanto, o filme não é imune a tropeços. A transição para o foco nos irmãos Shelburn é um pouco abrupta, e nenhum dos dois personagens é apropriadamente desenvolvido. Eles funcionam mais como arquétipos — Hal como a representação da luta interna e Bill como o caos externo —, o que pode deixar o espectador desejando uma exploração mais rica de suas motivações. Ainda assim, Theo James entrega performances sólidas, trazendo vulnerabilidade e charme aos papéis, o que mantém o público investido na jornada dos irmãos para deter o macaco.
Um dos aspectos mais interessantes de O Macaco é sua abordagem ao tema do trauma herdado. O filme vai além das cicatrizes emocionais, transformando o trauma em uma força sobrenatural tangível, personificada pelo macaco. O brinquedo não é apenas um objeto amaldiçoado, mas um símbolo do legado sombrio deixado pelo pai de Hal e Bill, que abandonou a família e, de certa forma, passou adiante o fardo do medo e da morte. Essa conexão entre gerações é reforçada pela relação de Hal com seu filho Petey, criando uma cadeia traumática de custódia que questiona como o mal se perpetua através das famílias.
O diretor Osgood Perkins demonstra habilidade ao equilibrar os elementos de terror com uma narrativa emocionalmente carregada. Ele entende as necessidades centrais da história e extrai seus temas de maneira eficaz, sem perder de vista o entretenimento. O macaco, como antagonista, é ao mesmo tempo assustador e fascinante, um instrumento de destruição que desafia os personagens a confrontarem seus medos mais profundos. A trilha sonora e a fotografia sombria complementam a atmosfera opressiva, enquanto as cenas de violência são coreografadas com um impacto visceral que não deixa espaço para indiferença.
O Macaco pode ser considerada uma boa adaptação do conto de Stephen King, que não costuma ser muito feliz nas adaptações de suas obras. O filme se destaca pela atmosfera claustrofóbica e sombria, que amplificam a tensão. A direção consegue criar cenas perturbadoras, embora se renda a algumas convenções e clichês do gênero. O elenco entrega performances sólidas, mas o roteiro peca por desenvolvimentos previsíveis e explicações excessivas, que diminuem o impacto do mistério, problemas que Osgood Perkins já havia apresentado no seu filme anterior, o já citado Longlegs. A trilha sonora, no entanto, é um ponto alto, elevando os momentos de suspense. No geral, O Macaco é uma experiência prazerosa para os fãs de terror, mas que poderia ter encontrado maior relevância caso houvesse explorado com mais profundidade sua premissa original.
Assista ao trailer: O Macaco
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
O músico e compositor Bob Dylan já foi tema de um documentário de Martin Scorsese (No Direction Home, 2005) e também interpretado em versões distintas de sua vida por Cate Blanchett, Ben Whishaw, Marcus Carl Franklin, Heath Ledger, Christian Bale e Richard Gere no filme biográfico estilizado Não Estou Lá (2007), dirigido por Todd Haynes. Agora, chega às telas a nova cinebiografia Um Completo Desconhecido (A Complete Unknown, 2024), dirigida por James Mangold, que limita seu recorte aos primeiros anos do artista.
O jovem Robert Zimmerman,
com 19 anos, chega a Nova York no início dos anos 1960 com seu violão e um
talento revolucionário. Seu primeiro objetivo é mostrar uma de suas composições
ao ídolo da juventude, o astro da folk music Woody Guthrie, internado em um
hospital psiquiátrico. Assim, inicia-se a jornada do grande músico e compositor
que passaria a ser conhecido pelo nome artístico de Bob Dylan (Timothée
Chalamet). Na cidade, ele estabelece relações com a cena musical da época e dá
os primeiros passos na carreira, ainda no gênero folk. Nesse período, conhece a
cantora Joan Baez (Monica Barbaro), com quem viria a formar uma dupla nos
primeiros tempos, dentro e fora dos palcos. Rapidamente, Dylan alcança o
sucesso, mas sua ascensão à fama é marcada por muitos conflitos pessoais e
artísticos. A culminância daquele primeiro período do artista acontece em 1965,
com sua polêmica e transgressora apresentação no Festival Newport Folk, quando
ousou utilizar elementos do rock elétrico em suas canções.
Bob Dylan, como retratado no filme, surge como um artista em constante transformação, um espírito inquieto em busca de sua verdadeira forma de expressão. Ao longo de sua trajetória, ele não se limita a um único gênero musical, transitando com maestria entre o folk, o blues e outros estilos, em uma jornada que reflete não apenas a evolução de sua música, mas também de sua identidade como criador. Essa busca incessante por uma voz autêntica vai além da mera experimentação sonora: é, antes de tudo, uma tentativa de dar forma musical à sua poesia, transformando palavras em melodias que ecoam a complexidade de suas reflexões e a profundidade de seu olhar sobre o mundo. Dylan não se contenta em repetir fórmulas ou seguir expectativas alheias. Ele desafia convenções, reinventa-se e, ao fazê-lo, redefine os limites da música popular, consolidando-se como um dos maiores ícones da cultura a partir dos anos 1960.
O desempenho de Timothée Chalamet é nada menos que especial e autêntico. O ator captura com talento a essência de um jovem Bob Dylan, transmitindo não apenas a postura e os maneirismos icônicos do artista, mas também a inquietude e a vulnerabilidade que definem sua busca por uma identidade artística. Chalamet mergulha profundamente no personagem, entregando uma interpretação que vai além da imitação superficial, revelando camadas emocionais que conectam o espectador à jornada introspectiva de Dylan.
Ao seu lado, Monica Barbaro (vista em Top Gun: Maverick) brilha como uma presença cativante e multifacetada. No papel de uma musa inspiradora, ela não só seduz Bob Dylan, mas também conquista a plateia com seu carisma e profundidade dramática. A química entre os dois funciona maravilhosamente bem, elevando a narrativa e adicionando um toque de humanidade e complexidade ao relacionamento tumultuado que viveram por um tempo. Barbaro, assim como Chalamet, demonstra uma entrega absoluta ao papel, tornando-se um dos grandes destaques da produção.
Juntos, Chalamet e Barbaro não apenas honram as figuras que representam, mas também elevam o filme a um patamar artístico superior, transformando a cinebiografia em uma experiência cinematográfica emocionalmente relevante. Seus desempenhos foram devidamente reconhecidos pela Academia, com indicações ao Oscar de Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante.
Apesar de todas as boas intenções, Um Completo Desconhecido (título retirado de um verso de uma das canções de Dylan) é uma cinebiografia mais convencional do que poderíamos desejar. Até onde se sabe publicamente, não houve participação direta de Bob Dylan na aprovação do material, o que, de certa forma, explica a abordagem superficial e reverencial adotada pelo filme. James Mangold, que já retratou figuras complexas em obras como Copland, Johnny & June e Ford vs. Ferrari, opta aqui por um caminho seguro, avesso a controvérsias: em vez de mergulhar nas contradições e nuances do artista, escolhe celebrar o mito, evitando questionamentos mais profundos sobre a persona e a obra de Dylan.
O resultado é um filme tecnicamente competente e com momentos de brilho, mas que acaba reduzindo a complexidade de uma das figuras mais enigmáticas e influentes da música do século XX. A ausência de uma interpretação mais ousada ou crítica faz com que Um Completo Desconhecido se aproxime mais de um tributo clássico e rotineiro do que de uma exploração genuína do homem por trás do mito. Em um momento em que as cinebiografias têm se esforçado para desconstruir ícones em busca de veracidade, o projeto, gestado por Mangold por vários anos, deixa transparecer sua inequívoca admiração pelo artista retratado, invalidando uma eventual perspectiva distante e crítica. O diretor opta, portanto, por reforçar apenas a lenda, perdendo a oportunidade de oferecer uma visão mais reveladora e desafiadora.
Assista ao trailer: Um Completo Desconhecido
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
Assista ao trailer: Flow
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
Polêmica. Esta é a marca que acompanha a produção francesa desde a primeira exibição no Festival de Cannes em 2024, onde conquistou o Prêmio do Júri e o prêmio de Melhor Atriz, concedido para a performance coletiva do elenco feminino. As primeiras vozes dissonantes já surgiram lá mesmo no prestigiado festival e prosseguem até hoje, turbinadas após as surpreendentes 13 indicações ao Oscar. Para o público brasileiro há ainda outro aspecto bastante particular e localista. A lenha na fogueira das controvérsias só aumentou após Emilia Pérez (Emilia Pérez, 2024) representar o grande adversário de Ainda Estou Aqui na corrida pela estatueta dourada do Oscar.
Assunto para alimentar o debate apaixonado é o que não falta. Declarações equivocadas e preconceituosas do diretor Jacques Audiard se somam às antigas mensagens inconvenientes da protagonista, a atriz Karla Sofía Gascón, resgatadas nas redes sociais, além de todo um contexto de acusações de exploração preconceituosa da realidade cultural mexicana representada no filme. Todo este cenário cerca a recepção e/ou rejeição de Emilia Pérez neste momento em que chega às telas em seu lançamento comercial.
O filme acabou entrado em um terreno minado. As repercussões destas controvérsias têm contaminado uma eventual boa vontade da audiência na apreciação isenta da produção. Convenhamos, no entanto, que Emilia Pérez reúne uma série de temas e abordagens de alto risco: olhar europeu etnocentrista sobre a América Latina; cartéis de narcotraficantes mexicanos; protagonista trans; procedimentos de transição de sexo e, cereja do bolo, o filme é um musical, justamente no ano em que Coringa 2 fracassou amargamente por apostar no mesmo caminho. Reúna tudo isto em um único filme e pronto. As chances de não funcionar são enormes. Não funcionou mesmo. Independente das contestações e acusações que surgiram no período pós-indicações ao Oscar, o fato é que Emilia Pérez não foi feliz no resultado.
Uma sinopse rápida para quem tem pressa: chefão do narcotráfico mexicano, Juan “Manitas” Del Monte, casado com Jessi (Selena Gomez), contrata advogada, Rita Castro (Zoe Saldaña), para ajudá-lo a se retirar do seu negócio e realizar o sonho secreto de tornar-se mulher. Assim, nasce Emilia Pérez (Karla Sofía Gascón).
Neste processo de transformação efetivamente duas novas vidas surgem. Rita, a advogada com poucas perspectivas de crescer na profissão torna-se imediatamente uma milionária pelos serviços prestados, e Juan / Emilia realiza o desejo de viver com outro corpo ressignificando seu gênero. Cresce entre elas uma amizade para a vida, mas há uma questão a resolver com o destino da esposa Jessi e os filhos. É basicamente sobre este entrecho dramático que se sustenta o filme de Jacques Audiard. A questão da transformação em si, da mudança de sexo, é quase um tema secundário em Emilia Pérez.
O processo de transformação não mudou apenas o corpo de Emilia. A percepção dos males do mundo aflora em sua mente acionando um gatilho de consciência. Quando existia em um corpo inadequado o chefão praticava o mal extremo, quando encontrou sua adequação de gênero ocorre o despertar. Inicia então uma cruzada de arrependimento e redenção ao assumir um papel público como símbolo de justiça social e luta pelos direitos da população esquecida. Nesta nova missão de vida Emilia assume ares de figura mítica, adorada pelo povo como uma santa popular.
Em termos de abordagem e concepção Emilia Pérez revela suas fragilidades como realização cinematográfica. Não há como negar que representa o México, os mexicanos e a cultura latina em geral com os estereótipos mais rasteiros que usualmente encontramos em produções de Hollywood. Por ser uma produção europeia, que supostamente trataria com mais cautela e atenção estes temas, o filme pecou muito. O que se percebe com clareza é que o contexto latino, multicolorido e sonoramente exuberante, não passa de um artifício cosmético com efeito manipulador.
Algo semelhante ocorreu com Romeu + Julieta de Bazz Luhrmann, que se apropriou de uma estética “caliente” para transportar a Verona da obra original para a modernidade em Venice Beach na Califórnia dos anos 90. Neste caso com um nível de alegoria e fantasia que Emilia Pérez não alcança por buscar um caminho mais naturalista na essência de sua narrativa. Inclusive, na utilização da música, Romeu + Julieta (para permanecermos no mesmo exemplo comparativo) se sai melhor. Como musical o filme de Jacques Audiard também não se realiza plenamente. Números musicais nada memoráveis se somam às canções nada marcantes apenas comprovam que o diretor errou a mão, demonstrando pouca intimidade (ou inspiração) para o gênero.
Emilia Pérez é mais moralista do que gostaria de ser. Evidencia ser uma produção oportunista que se apropria de um discurso progressista, concebida com estratégicos apelos mercadológicos, que pega carona na levada do momento. Faltou verdade, convicção e propósito na história que pretendia contar. Restou, citando Shakespeare, “muito barulho por nada”.
Assista ao trailer: Emilia Pérez
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela
Uma possível surpresa para aqueles que assistirem O Homem do Saco (Bagman, 2024) é descobrir que essa não é uma lenda exclusivamente brasileira. Por aqui essa figura sinistra que apavora o imaginário infantil é mais conhecida com o nome de Velho do Saco, uma espécie de andarilho que recolhe as crianças malcriadas e desobedientes as colocando em um saco e levando para local desconhecido. O fato é que este personagem simbólico está presente na cultura popular de muitos países, com predominância naqueles de língua latina, com pequenas variações nas mitologias locais.
Então neste O Homem do Saco temos uma versão de como esta figura é tratada nas terras do Tio Sam. Nesta (inexistente) disputa de versões estamos em larga vantagem. O nosso tradicional Velho do Saco raiz é muito mais apavorante do que esse tal de Bagman, com sua sacola de couro com zíper. A direção é do cineasta britânico Colm McCarthy, que possui grande experiência na TV onde dirigiu vários episódios para séries como Doctor Who, Sherlock, Peaky Blinders e Black Mirror.
Assista ao trailer: O Homem do Saco
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela