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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Isso Ainda Está de Pé?: terapia do riso amargo

 

Após a consagração como ator e as múltiplas indicações ao Oscar por Nasce uma Estrela, Bradley Cooper retorna à direção com um projeto mais intimista, porém igualmente ambicioso em sua simplicidade. Em Isso Ainda Está de Pé? (Is This Thing On?), o cineasta parece menos interessado em grandes arroubos formais do que em explorar as pequenas fissuras da experiência humana. O resultado é um filme que respira pelos silêncios, pelos olhares e, sobretudo, pela palavra dita em cima de um palco, ainda que o título nacional ameace desviar a atenção do que realmente importa.

A trama acompanha Alex (Will Arnett), um homem em crise após o fim de um longo casamento com Tess (Laura Dern). Numa noite de depressão e bebida, ele entra em um bar que apresenta números de stand-up. Em um impulso, sobe ao palco e descobre um novo mundo, que o faz se reconectar com suas dores e reflexões. Em meio a uma crise amorosa, que se soma à crise da meia-idade, Alex se reconecta consigo mesmo ao assumir definitivamente sua nova carreira como comediante nos palcos noturnos de Nova York. Tess, por sua vez, também se redefine com a retomada da carreira profissional no esporte (ela foi uma famosa jogadora de vôlei). Bradley Cooper, em papel coadjuvante, surge como contraponto e apoio na trajetória do protagonista. É nesse delicado equilíbrio entre afeto e performance que o filme crava suas raízes.


A direção suave e orgânica de Bradley Cooper evoca, em certos momentos, o legado de cineastas como Mike Nichols e Rob Reiner, especialmente na maneira como articula conflitos íntimos sob a lente de um humor inteligente e por vezes cáustico. Sem pretender alcançar a mesma densidade de seus referenciais, o filme compartilha dessa tradição em que as tensões sociais e afetivas emergem com leveza aparente. Afinal, as verdades mais duras tendem a encontrar melhor acolhida quando atravessadas pela ironia.

Nesse contexto, o título adotado no Brasil é, no mínimo, infeliz. A tentativa de dialogar com o universo do stand-up soa artificial e pouco espirituosa, como se buscasse uma associação fácil com a expressão “Comédia em Pé”, popularizada por aqui como tradução livre do gênero cômico consagrado nos Estados Unidos. Em vez de captar a essência do original, a adaptação escorrega para um trocadilho simplório que evoca, ainda que involuntariamente, a tradição dos títulos de duplo sentido das pornochanchadas dos anos 1970. Algo que, convenhamos, está longe de fazer jus ao espírito do filme.


Há, contudo, uma questão mais estrutural a ser observada. O filme é conduzido por uma perspectiva essencialmente masculina, que orienta tanto o ponto de vista narrativo quanto a elaboração dramática. As experiências, angústias e transformações orbitam quase exclusivamente o universo do protagonista, enquanto as personagens femininas permanecem periféricas e secundárias, definidas mais pela relação que estabelecem com ele do que por conflitos próprios. É um traço que, embora não invalide a obra, revela os limites do alcance da obra.

Ainda assim, há beleza no modo como os números de stand-up funcionam como uma espécie de terapia. O palco se transforma em um divã improvisado, onde as confissões íntimas encontram a cumplicidade da plateia. O que poderia soar como mera exposição se converte em partilha. Naquele espaço, a vulnerabilidade é mediada pelo humor, e o riso coletivo legitima dores, fracassos e inseguranças. Nesse jogo entre franqueza e performance, o protagonista reelabora a própria narrativa, transformando experiências pessoais em espetáculo e, ao mesmo tempo, em mecanismo de autocompreensão.


É preciso lembrar ainda que, com a explosão midiática dos blockbusters e o incentivo permanente às superproduções, uma parcela significativa do público passou a demonstrar descontentamento com o esvaziamento das produções de pequeno e médio porte nas salas de cinema. Esses filmes, mais intimistas e centrados em personagens, pareciam destinados quase exclusivamente às plataformas de streaming. Eis, portanto, a boa notícia: Isso Ainda Está de Pé? ocupa com dignidade esse espaço rarefeito, resgatando um cinema menos espetacular e mais atento às nuances humanas. Um cinema calcado em personagens, conflitos cotidianos e boas histórias. Nada além disso. E, às vezes, nada é mais necessário do que simplesmente uma boa história bem contada.


É justamente nesse terreno fértil que a odisseia de autoconhecimento de Alex se desenvolve. Sua jornada percorre diferentes estágios que, por analogia, ecoam as fases emocionais vivenciadas em momentos de perda ou transformação profunda: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e, por fim, a aceitação. Essas etapas funcionam como alicerces para a evolução da narrativa, conduzindo a personagem por um processo gradual de redescoberta. Ao longo desse percurso, Alex recupera parte da autoestima que, sabe-se lá por qual razão, parecia ter se diluído em algum ponto da vida conjugal. O filme, no entanto, ao optar por um desfecho resolutivo e harmônico, típico da tradição hollywoodiana, parece suavizar os conflitos anteriores, conferindo um tom moralista à trajetória. Ainda assim, a jornada emocional construída até ali sustenta a força da personagem, mesmo que o arremate final deixe espaço para questionamentos sobre os caminhos escolhidos pela narrativa.

Assista ao trailer: Isso Ainda Está de Pé?


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

@janeladatela


domingo, 14 de janeiro de 2024

Priscilla e Leonard: do rei ao maestro

 


O final da temporada cinematográfica de 2023 e o início da temporada 2024 foi marcado pelo lançamento de duas cinebiografias de figuras ilustres da música norte-americana. O maestro e compositor Leonard Bernstein, autor das composições do musical West Side Story (adaptada para o cinema com o título de Amor Sublime Amor, no Brasil), e Priscilla Presley, ex-esposa de Elvis, chegaram aos cinemas em longas-metragens onde o único ponto comum é o universo da música. Pois as abordagens e resultados não poderiam ser mais distintos.

Maestro se apresenta como um filme de flagrantes pretensões autorais, um verdadeiro tour de force de Bradley Cooper, aqui fazendo dupla jornada como ator e diretor, em sua segunda obra como realizador. Já Priscilla, que traz na direção a assinatura de Sofia Coppola, mostra episódios do atribulado relacionamento de Priscilla e Elvis Presley, desde o primeiro encontro até o rompimento.

Há, por definição, uma sensível diferença entre os dois filmes. Maestro se apresenta menos como uma cinebiografia e mais como um perfil distanciado e interpretativo do artista, onde o papel de sua esposa ganha um genuíno papel de protagonismo (interpretado magnificamente por Carey Mulligan). Por sua vez, o filme de Sofia Coppola tem uma proposta mais, digamos, convencional, pois desenvolve a trajetória da protagonista de forma mais efetivamente biográfica, quase episódica, mas sempre com um olhar comprometido, afetuoso e compreensivo, revelador da identificação feminina e feminista.

Curiosamente, as duas obras, oriundas do universo da música, prescindem absolutamente da música para narrar suas histórias. As composições clássicas de Leonard Bernstein e os rocks irresistíveis de Elvis Presley são praticamente sonegados ao público, pois não passam de coadjuvantes com pouco tempo de tela. Em poucas e pontuais sequências marcam presença, mas longe, muito longe, de saciar a expectativa da audiência. O que, convenhamos, dado o tamanho dos artistas, é uma frustração inicial. Faz falta? Faz. Compromete a experiência? Absolutamente não.


Após a bem sucedida versão século 21 de Nasce Uma Estrela (2018) o ator Bradley Cooper encontrou sua nova persona cinematográfica e se impôs uma tarefa difícil: achar um lugar ao sol como realizador de prestígio. Maestro é sua aposta para conquistar este lugar. Que virada de mesa. Da comédia Se Beber, Não Case! Bradley chega, com Maestro, ao drama (dilema?) de “se casar, não beba”. Tudo em seu filme gira em torno do seu casamento, da paixão arrebatadora com a amiga / amante / esposa Felicia até o ato final da história do casal. Por tratar-se de um melodrama, com toques biográficos, Maestro é, em essência, um filme sobre sua mulher, e não do artista como criador. É desta perspectiva que vem a força do protagonismo de Felicia como contraponto e eventualmente musa inspiradora de Leonard Bernstein.


Neste aspecto há que se louvar o desprendimento de Bradley Cooper que generosamente abre espaço para sua parceira de elenco brilhar. Ainda que, nos momentos onde o foco narrativo é exclusivamente o artista, a interpretação do ator exija para si muitos holofotes (metafóricos e literais). O resultado, no mais das vezes, é um desempenho elogiável, mesmo que aqui e ali demonstre um que de overacting e histrionismo. Um exemplo: a longa sequência do concerto na catedral, com Bradley reproduzindo com excelência os gestos exagerados e eloquentes de Bernstein com a batuta à frente da orquestra. O melhor momento do ator/diretor representando o maestro é justamente este. Pura entrega, sem falas, apenas expressão corporal.


O casamento também é o centro das atenções de Priscilla. Um casamento imperfeito que iniciou de maneira um tanto bizarra quando Elvis prestava serviço militar em uma base norte-americana na Alemanha. A bizarrice não está no cenário, mas na pouca idade de Priscilla quando começaram a namorar (sem sexo, segundo Elvis). Priscilla tinha 14 anos e Elvis 24. Algo impensável para um artista de sucesso nos dias de hoje. Além da pouca idade, Priscilla enfrentou ainda outro desafio. Naquela época (final dos anos 50) Elvis era o ídolo da música mais desejado pelas mulheres, de todas as idades. Então, a solução foi “escondê-la” dos olhos do público, segundo orientação do empresário Coronel Tom Parker que comandava a carreira de Elvis com mão de ferro. Priscilla ficou oculta da vida pública do rei do rock nos primeiros anos de relacionamento, vivendo na mansão de Graceland em Memphis (Tennessee) como uma princesa aprisionada numa gaiola dourada.


Esta ocultação da mulher de Elvis da vida pública é o objeto de interesse de Sofia Coppola, que adaptou a autobiografia de Priscilla Presley, lançada em 1985. Seu filme mostra o dilema de uma jovem inexperiente que aceita abrir mão de sua individualidade em nome do amor por Elvis. O arco narrativo de Priscilla percorre a jornada da protagonista, da perda da inocência até a tomada de consciência e o amadurecimento. De quebra mostra um lado B de Elvis raramente exposto: um homem inseguro, infantil e autoritário (com a esposa). Ou seja, o casamento de Elvis e Priscilla estava longe de ser um conto de fadas.


Já quanto ao filme, Priscilla está bem distante de ser um trabalho memorável na filmografia de Sofia Coppola. O filme se ressente de sua estrutura absolutamente acadêmica e episódica (conforme já citado) que enfraquece a força narrativa do longa ao buscar o realismo. Nos identificamos com o contexto histórico, compactuamos com a tragédia pessoal de Priscilla, mas falta paixão. Desta vez a escolha de Sofia deixou a desejar.

Assista ao trailer: Maestro e Priscilla


Jorge Ghiorzi

Membro da ACCIRS – Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul

 

Contato: janeladatela@gmail.com