domingo, 11 de janeiro de 2026

O Beijo da Mulher Aranha: a arte como resistência

Quatro décadas após a impactante adaptação de Hector Babenco, O Beijo da Mulher Aranha ganha nova vida nas telas em 2025, dirigida por Bill Condon (Deuses e Monstros e Dreamgirls). Para o público brasileiro, a expectativa inicial poderia ser a de um simples remake hollywoodiano do clássico de 1985. Mas não é bem isso. Esta versão adapta o premiado musical da Broadway de 1993, que também se baseia no romance do argentino Manuel Puig. Essa origem teatral explica a predominância dos números musicais, que invadem a narrativa com exuberância, muitas vezes sacrificando a profundidade do contexto político central na obra original.

Em meio à violência e à degradação de uma prisão argentina durante a ditadura militar dos anos 1980, onde a tortura e a vigilância constante buscam aniquilar qualquer resquício de humanidade, Luis Molina (interpretado por Tonatiuh, com entrega, delicadeza e autonomia marcantes), um decorador de vitrines condenado por atentado ao pudor, divide a cela com o preso político Valentín Arregui (Diego Luna). Para escapar dos horrores cotidianos, Molina narra o enredo de seu musical hollywoodiano favorito, estrelado pela diva Ingrid Luna (Jennifer Lopez) no papel da sedutora Mulher-Aranha. Uma fantasia que, aos poucos, transforma a relação improvável entre os dois em um laço profundo de empatia, vulnerabilidade e amor.

Apesar do background já gravado no inconsciente coletivo daqueles que conhecem a adaptação icônica dos anos 1980, é preciso destacar que os protagonistas desta versão constroem personagens distintos e autônomos em relação ao trio clássico de Babenco (William Hurt, vencedor do Oscar por este papel, Raul Julia e Sonia Braga). As atuações de Tonatiuh e Diego Luna oferecem uma leitura fresca e contemporânea, especialmente sensível às nuances de gênero, identidade e vulnerabilidade emocional.

A nova adaptação abraça deliberadamente o escapismo e tangencia o pano de fundo sociopolítico. Há uma ousadia comedida ao privilegiar a beleza em detrimento da tragédia. Politicamente tímido, distante e pouco comprometido, o filme potencializa a ficção como forma de resistência, afirmando dignidade e humanidade apesar da ditadura. Uma perspectiva que, por fim, ainda ecoa no contexto atual.

O cerne emocional do filme reside na declaração de Molina, que diz ter descoberto a dignidade justamente no lugar mais indigno do mundo. Essa afirmação sintetiza a conexão improvável entre ele e Valentín, que nasce do escapismo compartilhado de filmes e musicais, evolui para uma empatia profunda e culmina em um amor que transcende rótulos de gênero, orientação sexual ou ideologia. Em meio à opressão da prisão, a fantasia deixa de ser simples evasão e se transforma no caminho para redescobrir a humanidade, o afeto e a autoestima.


O projeto conta com nomes de peso como Ben Affleck e Matt Damon, como produtores executivos, ao lado da própria Jennifer Lopez que também atua como produtora, tornando o longa um veículo pessoal para seu estrelismo. Os números musicais que protagoniza resgatam um glamour tardio dos grandes musicais da Metro-Goldwyn-Mayer, com produção luxuosa e coreografias elegantes, mas nenhum se destaca como memorável. Falta a grandiosidade visionária de um Busby Berkeley ou a inventividade revolucionária de Bob Fosse.

Visualmente suntuoso em algumas passagens, o filme de Condon celebra a beleza como ato de resistência, mas sua timidez política e os problemas narrativos impedem que alcance toda a potência trágica e subversiva do material original. Ao transitar entre os dois polos (a brutalidade opressiva da prisão e o brilho fantástico dos musicais), o diretor não consegue contornar por completo os tropeços de ritmo e narrativa decorrentes dessa alternância constante entre universos tão distintos, o que gera uma sensação de irregularidade no fluxo e deixa pairar no ar uma dúvida sobre o efetivo propósito da obra. Ainda assim, no geral, permanece uma celebração tocante do poder transformador da arte e da dignidade que ela consegue preservar mesmo nas sombras mais escuras. Aspectos que pertencem de fato à essência da obra original de Manuel Puig, e que esta nova versão tende a diluir em favor de um tom mais escapista e luminoso.

Assista ao trailer: O Beijo da Mulher Aranha

Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Hamnet – A Vida Antes de Hamlet: quando luto vira arte

A força motriz da criação artística provém de diversas fontes: a beleza efêmera da natureza, a euforia do amor, a indignação diante da injustiça social, até os abismos mais sombrios da experiência humana. Dentre elas, uma das mais poderosas é, sabidamente, a dor. Essa companheira inevitável transforma o sofrimento íntimo em manifestações que reverberam na alma coletiva. É exatamente essa premissa que ganha corpo no drama Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025), dirigido pela cineasta chinesa Chloé Zhao, vencedora do Oscar de Melhor Diretora e Melhor Filme por Nomadland (2020), e que já havia explorado um universo completamente distinto com o filme de super-heróis Eternos (2021), da Marvel. Esses três projetos, de gêneros e orçamentos tão díspares, revelam a versatilidade de Zhao, capaz de transitar com sensibilidade entre o intimismo poético, o épico coletivo e agora o drama histórico introspectivo.

Adaptado do romance homônimo de Maggie O’Farrell (publicado em 2020 e coadaptado para o roteiro pela própria autora em parceria com Zhao), o filme apresenta uma sinopse imaginativa e ficcional. Em meados do século XVI, na Inglaterra elisabetana, Agnes Hathaway (Jessie Buckley), uma curandeira ligada à natureza, casa-se com o jovem William Shakespeare (Paul Mescal). Juntos, vivem o amor, a paternidade e a tragédia da morte prematura do filho Hamnet, aos 11 anos, vítima da peste. O filme especula com delicadeza e profundidade que esse luto devastador tenha funcionado como catalisador emocional para a criação da peça Hamlet, uma das tragédias mais profundas da literatura. Embora a conexão direta entre o luto real do dramaturgo e a obra permaneça uma especulação histórica sem comprovação documental, a narrativa constrói um retrato comovente do amor, da perda, da superação e do poder redentor da arte. O espectador é convidado a refletir sobre como as feridas mais profundas podem, contraditoriamente, germinar as sementes de uma criação artística imortal.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não se vale do luto como artifício fácil para arrancar empatia do espectador. Em vez disso, a dor e a culpa introspectiva de Agnes e William Shakespeare recebem uma abordagem libertadora. O sofrimento se torna um gatilho emocional vigoroso, capaz de romper bloqueios internos e abrir caminho para uma superação genuína. Trata-se de uma evolução espiritual sutil, porém sublime, que se manifesta na reconfiguração radical da própria perspectiva diante dos inevitáveis desafios da vida e do mundo.

A sequência final do filme é devastadora ao tocar fundo na alma do espectador, ressoando cordas emocionais que vão muito além do luto individual. Na estreia da tragédia Hamlet no Globe Theatre, Chloé Zhao transforma a dor íntima de Agnes em um ato coletivo de catarse que ecoa pelo público ao redor, dissolvendo as barreiras entre o privado e o público, entre a tragédia pessoal e a arte universal. Naquele momento, somos todos um único organismo unificado. É como se, naquele instante sublime, o teatro permitisse uma forma de ressurreição simbólica. Pela magia do palco, o sofrimento de Agnes e Will encontra, por fim, um espaço para ser compartilhado e, de alguma forma, aliviado. Não há resolução fácil ou consolo barato. O que resta é a reconciliação delicada com a perda. A arte transforma o insuportável em algo eterno e, paradoxalmente, vivo. Essa cena não apenas fecha o filme. Ela o eleva, deixando o espectador com o peito apertado, mas também com uma estranha sensação de gratidão pela capacidade humana de converter dor em significado.

Com atuações avassaladoras de Jessie Buckley e Paul Mescal, que capturam a complexidade do amor e da perda de forma emocionalmente intensa e visualmente poética, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se consolida como uma das obras mais poderosas da temporada 2025/2026. Uma meditação profunda sobre como a dor familiar pode se transmutar em arte transcendental, representada por um filme construído com extrema sensibilidade e compreensão da alma humana.

Assista ao trailer: Hamnet – A Vida Antes de Hamlet


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

A Empregada: nada é o que parece

 

Dirigido por Paul Feig e baseado no best-seller homônimo de Freida McFadden, A Empregada (The Housemaid) exemplifica perfeitamente o estilo característico da autora. McFadden constrói thrillers psicológicos centrados em protagonistas femininas complexas, narradoras em primeira pessoa que oscilam entre vítima indefesa, heroína vingativa e vilã manipuladora, muitas vezes ocupando essas posições simultaneamente na trama. Seu traço mais marcante é a exploração da ambiguidade moral extrema dessas mulheres, gerando tensão através de reviravoltas que desafiam a empatia do leitor (ou espectador). A autora gosta de deixar o público desconfortável com o quanto acaba torcendo por personagens moralmente questionáveis. Tanto o livro quanto sua adaptação cinematográfica capturam essa essência, tornando-se exemplos icônicos do subgênero.

A trama principal acompanha Millie Calloway (Sydney Sweeney), uma jovem com um passado turbulento e um histórico criminal que busca desesperadamente um recomeço. Ela aceita o emprego como empregada doméstica na luxuosa mansão da família Winchester, residência da instável Nina (Amanda Seyfried), seu atraente e compreensivo marido Andrew (Brandon Sklenar) e a pequena filha do casal. O que começa como uma oportunidade dos sonhos logo revela camadas de segredos sombrios, manipulações psicológicas e dinâmicas de poder perigosas. À medida que Millie se integra à rotina da casa, percebe que nada é o que parece. A fachada de família perfeita esconde tensões profundas, abusos velados e intenções dissimuladas.

Por grande parte da narrativa o filme nos conduz a um grande novelão carregado de clichês clássicos do thriller doméstico. A saber, estão lá a esposa aparentemente desequilibrada que sente perder a atenção do marido, a jovem e bela empregada que chega como intrusa sedutora e esconde um passado misterioso, e o marido charmoso que surge como o único ponto de equilíbrio aparente. Estabelece-se um triângulo amoroso onde cada vértice tem propósitos ocultos, dissimulados como mandam as regras do suspense psicológico. No entanto, o filme cumpre fielmente outra premissa básica do gênero: nada é o que parece na superfície. Há camadas e mais camadas a serem desvendadas, e a narrativa ganha cada vez mais caos e imprevisibilidade conforme avança.

As reviravoltas, especialmente no terceiro ato, são vertiginosas e superam as expectativas iniciais, entregando o tipo de choque que os fãs de McFadden adoram. O crescente suspense, no entanto, nem sempre convence. O roteiro, assinado por Rebecca Sonnenshine (em parceria com a própria Freida McFadden), parece apressado em certos momentos, acelerando o ritmo onde poderia se demorar nas sutilezas psicológicas que fazem o livro brilhar. A construção da tensão perde força pela pressa em chegar aos grandes plot twists, o que compromete um pouco a imersão. Além disso, nenhum dos personagens centrais conquista plenamente a empatia do público. Millie, Nina e Andrew são figuras por demais ambíguas, manipuladoras e falhas, o que gera uma distância emocional.

Como resultado, o espectador não torce necessariamente pelos personagens, mas pelo caos em si. Queremos ver o circo pegar fogo, as máscaras caírem e as dinâmicas explodirem em violência e revelações. Isso transforma o filme em um guilty pleasure (prazer culposo) eficiente, um entretenimento trash e exagerado que diverte pelo absurdo das reviravoltas e pelo compromisso das atuações, especialmente Seyfried, que entrega uma performance intensa e sem freios.

As forças e fraquezas do filme se ancoram em sua ambivalência. Ele é ao mesmo tempo selvagemente divertido, provocador e cheio de uma energia perversa, mas também profundamente superficial. Essa dualidade evoca um retorno consciente aos thrillers eróticos e exagerados dos anos 90. A adaptação abraça esse espírito sem pudor, mas quando tenta ser mais contida ou realista, tropeça. Ao se entregar ao exagero, ao camp e ao absurdo das reviravoltas, o filme mostra afinal a que veio e até distrai como entretenimento fugaz. Nada mais.

No fim, A Empregada funciona como uma adaptação que respeita o espírito provocador de McFadden, mas sofre com as limitações de uma transposição para o cinema que não consegue capturar todas as nuances internas do livro. Ainda assim, é um thriller que cumpre seu papel por prender a atenção, chocar na medida certa e deixar o espectador debatendo as moralidades de seus personagens. Para quem gosta de histórias que brincam com a linha entre vítima e vilão, sem oferecer respostas fáceis, o filme entrega um pacote satisfatório de tensão e entretenimento.

Assista ao trailer: A Empregada


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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domingo, 21 de dezembro de 2025

Melhores Filmes de 2025

 

Em um ano que testemunhou o cinema resistir às alterações do mercado e reinventar-se com coragem rara, coroado pelo histórico primeiro Oscar do cinema brasileiro com Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, estes dez filmes destacam-se não apenas pela excelência técnica ou pelas performances inesquecíveis, mas pela forma como dialogam com o tempo em que vivemos. O recorte temático é amplo e diverso, percorrendo da ferida ainda aberta das ditaduras à solidão contemporânea, da celebração da cultura negra à denúncia silenciosa da opressão, do revisionismo sertanejo à poesia do luto elisabetano.

São obras que nos confrontam, consolam e, acima de tudo, nos lembram do poder único do cinema de transformar o pessoal em universal, o efêmero em eterno. E que orgulho ver o Brasil brilhar com força dupla nesta seleção, com dois títulos nacionais entre os melhores do ano.

Aqui está uma seleção eclética e apaixonada dos filmes que mais marcaram o ano. Não se trata de um ranking, mas uma lista em ordem aleatória de obras que, cada uma à sua maneira, expandiram os limites do cinema com ousadia, emoção e inteligência. De vampiros blues ao sertão goiano, de espionagem conjugal a luto shakespeariano, estes são os títulos que nos fizeram pensar, sentir e lembrar por que amamos as salas escuras.



1)        PECADORES (Sinners)

de Ryan Coogler

Uma fusão audaciosa de horror vampiresco, blues e comentário social, que transforma o filme de gênero em uma celebração vibrante da cultura negra, com performances duplas hipnóticas de Michael B. Jordan e uma trilha sonora que eleva a narrativa a um patamar épico e emocional.




2)        O AGENTE SECRETO

de Kleber Mendonça Filho

Thriller político neo-noir ambientado no ano de 1977, em plena ditadura militar brasileira, que explora memória, resistência e repressão com tensão palpável, visual elegante e uma performance premiada de Wagner Moura como um homem fugindo do passado em Recife.




3)        UMA BATALHA APÓS A OUTRA (One Battle After Another)

de Paul Thomas Anderson

Um thriller de ação visceral e oportuno sobre revolução, vingança e família, impulsionado pela interpretação magnética de Leonardo DiCaprio e uma edição precisa que captura o caos da história contemporânea com intensidade inesquecível.




4)        OESTE OUTRA VEZ

de Erico Rassi

Uma revisão poética e revisionista do western clássico, ambientada no sertão goiano, que destaca a fragilidade da masculinidade tóxica, os valores do orgulho destrutivo e uma narrativa contemplativa essencialmente masculina, reinventando o gênero com profundidade emocional, ironia afiada e uma perspectiva essencialmente brasileira.




5)        CÓDIGO PRETO (Black Bag)

de Steven Soderbergh

Thriller de espionagem cerebral e elegante, com Cate Blanchett e Michael Fassbender como um casal de agentes em crise de lealdade, brilhando pela tensão conjugal, diálogos afiados, reviravoltas inteligentes e uma abordagem sofisticada que prioriza intriga psicológica sobre ação explosiva.




6)        SONHOS DE TREM (Train Dreams)

de Clint Bentley

Um luminoso retrato da América rural e do trabalho árduo de operários e lenhadores, encenado com sensibilidade e delicadeza, que captura a beleza melancólica da vida comum através de cinematografia hipnotizante e uma performance comovente de Joel Edgerton, celebrando a dignidade dos invisíveis.




7)        FOI APENAS UM ACIDENTE (It Was Just an Accident)

de Jafar Panahi

Um drama iraniano poderoso que denuncia opressão com coragem feroz e humanidade profunda, destacando-se pela narrativa impactante, autenticidade crua e uma crítica social que transforma dor pessoal em resistência universal.




8)        MISERICÓRDIA (Miséricorde)

de Alain Guiraudie

Uma exploração sensível e ambígua do perdão, da redenção e da fragilidade humana, que brilha pela sutileza emocional, direções de atores impecáveis e temas de empatia que tocam a alma, oferecendo uma visão provocadora e esperançosa em meio ao sofrimento e aos segredos de uma pequena comunidade.




9)        FRANKENSTEIN

de Guillermo del Toro

Visão gótica e comovente que humaniza o monstro clássico com visuais exuberantes, performances arrebatadoras de Jacob Elordi e Oscar Isaac, e uma reflexão profunda sobre criação, solidão e beleza na imperfeição.




10)    HAMNET – A VIDA ANTES DE HAMLET

de Chloé Zhao

Adaptação devastadora, que transforma luto familiar em arte transcendental, com atuações avassaladoras de Jessie Buckley e Paul Mescal, explorando amor, perda e o poder curativo da criação shakespeariana de forma emocionalmente avassaladora e visualmente poética.


Jorge Ghiorzi

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terça-feira, 4 de novembro de 2025

O Agente Secreto: perna cabeluda, gato de duas caras e tubarão

 

Em meio a um cenário de renovado prestígio para o cinema nacional, O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, surge não como um simples sucesso, mas como um fenômeno cultural de repercussão internacional. A trilha de seu impacto é pavimentada por aclamação crítica, premiações em festivais, destaque à visão autoral do diretor e à performance do protagonista, Wagner Moura.

Grande parte do êxito de O Agente Secreto reside na habilidade de Kleber Mendonça em conduzir, com notável sensibilidade, uma trama de múltiplas camadas. O diretor mantém um ritmo preciso sem abrir mão de um olhar amplo e ambicioso sobre a realidade brasileira de cinquenta anos atrás, evitando qualquer tom didático ou simplificação. É nesse equilíbrio que o filme se torna ardiloso, por dialogar com um passado que ecoa de forma perturbadora no presente. Mais do que um resgate da memória coletiva, a obra se projeta como um alerta sobre o destino de uma nação que teima em se perder pelos mesmos (des)caminhos.

Recife, 1977. Na esteira de um passado turbulento que insiste em não ficar para trás, Marcelo (Wagner Moura), um professor especializado em tecnologia, deixa São Paulo com a esperança de encontrar um recomeço. Sua chegada à capital pernambucana coincide com as comemorações do Carnaval. Aquela aparente euforia logo se revela enganosa. Por trás da alegria se esconde um caos subterrâneo de violência e repressão. Após se instalar em uma espécie de “casa de refugiados”, Marcelo passa a ser alvo de uma dupla de assassinos de aluguel. A cidade que prometia ser um porto seguro revela-se, na verdade, uma armadilha da qual ele não consegue escapar.

A trama de O Agente Secreto não se constrói sobre grandes ações, mas sobre a tensão silenciosa da vigilância, os gestos mínimos de resistência e a paisagem urbana do Recife (com destaque para o Cine São Luiz, conhecido nacionalmente após Retratos Fantasmas), que se torna um personagem simultaneamente solar, sombrio e onipresente. O filme é, no fundo, um estudo sobre a corrosão da alma em um país onde a linha entre o público e o privado foi violentamente apagada.

O filme se configura, assim, como um amplo mosaico do Brasil dos anos 1970. Um país multicolorido, pleno de sons, sabores e alegria na superfície, mas que sustenta um simulacro de felicidade para encobrir um universo oculto de corrupção, violência e autoritarismo. O filme encontra seu eixo justamente nesse contraste entre animação e repressão, expondo as fissuras de um tempo em que a aparência festiva mascarava a tensão política e moral do país.

Com uma narrativa que subverte a cronologia tradicional, O Agente Secreto acaba se tornando vários filmes em um só, mesclando doses de humor, momentos de drama, situações de suspense, elementos de filme de crime e registros documentais de sua época. O caráter contraditório da realidade brasileira fica explícito pelas pitadas de nonsense e elementos bizarros como uma perna cabeluda, um gato de duas caras e um tubarão. Em suma, um suco de Brasil: intenso, caótico e, de algum modo, fascinante.

Em O Agente Secreto, Kleber Mendonça constrói um retrato deliberadamente alegórico de um país dilacerado. Seus personagens, transitando entre o real e o caricatural, espelham o delírio de uma sociedade sob o jugo da vigilância. Essa atmosfera de descompasso é intensificada por uma mise-en-scène que emprega enquadramentos instáveis, cortes abruptos e uma fotografia de cores saturadas e sombras densas, forjando uma sensação de permanente inquietação.

A essa visão fragmentada soma-se uma estética sonora igualmente irônica e calculada. A trilha, os efeitos e os silêncios são manipulados para acentuar o contraste entre a fachada alegre do cotidiano e a tensão que consome por dentro. É nesse universo à beira do absurdo que reside a chave do filme. Ao mesclar o grotesco e o cotidiano, o realizador explora o surreal como ferramenta narrativa, criando uma experiência em que o espectador oscila sensorialmente. O resultado é uma narrativa que transforma o caos político dos anos 70 em um exercício de linguagem cinematográfica. Sob a aparência de uma trama de suspense com enredo policial, O Agente Secreto funde com naturalidade a moralidade e a paranoia do Brasil.

Assista ao trailer: O Agente Secreto


Jorge Ghiorzi

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quinta-feira, 23 de outubro de 2025

Bom Menino: pelos olhos do medo

 

Imagine um filme de horror e suspense onde tudo que vemos e sentimos é filtrado pela percepção de um cão. Esta é a premissa ousada e genial de Bom Menino (Good Boy, 2025), dirigido por Ben Leonberg. O filme não apenas utiliza um cachorro como protagonista, mas mergulha o espectador por completo em sua subjetividade, criando uma experiência de medo única e profundamente cinematográfica.

A trama segue um homem que, após uma tragédia familiar não detalhada, se refugia na antiga casa de sua família, um local carregado de memórias e suspeito de ser, em algum nível, mal-assombrado. Ele não está sozinho, seu fiel cão, Indy, faz companhia. É através dos olhos e ouvidos de Indy que testemunhamos o tutor passar por uma inquietante transformação, possivelmente ligada a uma maldição hereditária, enquanto ambos são expostos a ameaças invisíveis, mas potencialmente fatais.

A opção narrativa de adotar a perspectiva canina tem implicações formais profundas. A câmera permanece quase sempre em ângulo baixo, e os humanos são retratados de forma fragmentada, apenas torsos, mãos, pernas, etc. Seus rostos raramente são vistos por completo, nunca se constituindo como personagens plenos, mas como "objetos de cena" dentro do mundo sensorial de Indy. A reconhecida sensibilidade canina é traduzida com maestria, nos conduzindo a dimensões sonoras e visuais inacessíveis à percepção humana. Nesse universo, silêncios se tornam eloquentes e ruídos se amplificam, construindo uma tensão constante.

Nesse contexto, há algo de brilhante na expressão neutra de Indy. Ela funciona como uma tela em branco para as projeções do espectador, um princípio que remete diretamente ao famoso Efeito Kuleshov. O cineasta russo Lev Kuleshov demonstrou, nos anos 1920, que uma mesma expressão facial impassível adquire significados diferentes conforme a imagem que a precede ou sucede. Em Bom Menino, o olhar do cão não comunica por si só, mas pelo contexto criado pela montagem. Cada corte, cada novo enquadramento projeta sobre ele uma emoção: medo, alerta, curiosidade. O significado não está intrinsicamente em seus olhos, mas naquilo que o espectador, guiado pelo filme, decide ver neles. Ele nada expressa, mas tudo reflete.

A magia do filme é que essa "atuação" convincente é alcançada sem a dependência de truques digitais, já que a produção é de baixíssimo orçamento. O segredo reside na paciência do realizador e no trabalho magistral de edição. Não é surpresa, então, descobrir que Indy é, na vida real, o cachorro do próprio roteirista e diretor, Ben Leonberg. Essa sintonia real entre dono e animal explica parte do sucesso, com o restante da magia sendo conquistado na sala de corte, onde os fragmentos de comportamento canino são costurados para criar uma performance narrativa.

Apesar da engenhosidade de sua premissa e de sua curta duração (pouco mais de 70 minutos), é inegável que, em certo ponto, as situações de tensão começam a se tornar um pouco repetitivas, sem conduzir a trama para frente com a agilidade que se poderia esperar. No entanto, este é um tropeço menor diante da realização geral.

Por fim, para além de seus méritos como filme de terror, Bom Menino reforça de maneira poderosa e comovente a conexão única entre cães e seres humanos. O filme nos lembra que, por vezes, a lealdade mais pura e a percepção mais aguçada do perigo vêm de uma criatura que, embora não fale nossa língua, nos entende de uma forma que talvez nós mesmos não sejamos capazes. É um testemunho arrepiante e belo do vínculo que desafia até mesmo as sombras mais antigas e assustadoras.

Assista ao trailer: Bom Menino


Jorge Ghiorzi

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sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Depois da Caçada: a fragilidade das máscaras morais

 

O mais recente filme do prolífico e contundente Luca Guadagnino, Depois da Caçada (After the hunt, 2025), traz todas as marcas reconhecíveis de sua filmografia: desejo reprimido, moralidade flexível, rebeldia criativa e um certo inconformismo iconoclasta. Ainda assim, é um trabalho que se distancia emocionalmente de obras anteriores, como Rivais, Queer e o subestimado Até os Ossos. Aqui, o diretor parece interessado menos em como amamos e mais em como pensamos sobre o amor, o poder e o julgamento. Depois da Caçada é um filme cerebral, provocativo e, por vezes, deliberadamente desconfortável. 

A história gira em torno de Alma (Julia Roberts), professora de filosofia em Yale, cuja vida pessoal e profissional começam a desmoronar após uma série de pequenas fraturas éticas e afetivas. Casada com Frederik (Michael Stuhlbarg), um intelectual espirituoso que aceita com humor o fato de amar mais do que é amado, Alma atrai o interesse de Hank (Andrew Garfield), colega de departamento e espécie de rebelde acadêmico, além da admiração fervorosa de Maggie (Ayo Edebiri), sua aluna de doutorado. Essas relações, que se iniciam como trocas intelectuais e afetivas, se tornam o epicentro de um jogo de poder que expõe a fragilidade das máscaras morais que sustentam o meio universitário.


Guadagnino transforma esse microcosmo acadêmico num campo de batalha de ideias e ressentimentos. O campus, com seus corredores frios e salas iluminadas por luz difusa, se configura como um cenário quase clínico, onde as emoções são dissecadas com precisão cirúrgica. O filme oscila entre a sátira e o drama psicológico, mostrando personagens que confundem retórica com ética e que se protegem atrás de discursos sofisticados, enquanto suas vidas pessoais se desintegram.

É revigorante ver um filme de Hollywood voltado a adultos, que aborda com seriedade temas como feminismo, cultura do cancelamento, política de identidade e diferença geracional. Mas “Depois da Caçada” é, em muitos momentos, mais admirável do que envolvente. Guadagnino parece tão interessado em discutir as contradições de nosso tempo que esquece de nos fazer sentir o impacto humano dessas contradições. Seu filme quer ser uma radiografia moral do presente, mas por vezes soa como uma tese filmada. Brilhante, provocante, porém emocionalmente árida.


Julia Roberts, no entanto, sustenta todo este peso com uma presença magnética. Ela está em quase todos os 139 minutos, e sua performance é o eixo em torno do qual o caos gira. É um tour de force, daqueles que costumam render indicações a prêmios, e, ainda que o roteiro lhe ofereça mais ideias do que emoções, Roberts encontra humanidade até nas contradições mais duras de Alma.


Com ecos de um ceticismo sofisticado à la Woody Allen, mas sem o alívio da comédia, Depois da Caçada é um filme que pensa demais e sente de menos. É cinema de conceito, não de catarse. Admirável na construção, mas frustrante na entrega. Uma experiência que nos desafia, mas nos toca com pouca paixão.

Assista ao trailer: Depois da Caçada


Jorge Ghiorzi

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