terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Isso Ainda Está de Pé?: terapia do riso amargo

 

Após a consagração como ator e as múltiplas indicações ao Oscar por Nasce uma Estrela, Bradley Cooper retorna à direção com um projeto mais intimista, porém igualmente ambicioso em sua simplicidade. Em Isso Ainda Está de Pé? (Is This Thing On?), o cineasta parece menos interessado em grandes arroubos formais do que em explorar as pequenas fissuras da experiência humana. O resultado é um filme que respira pelos silêncios, pelos olhares e, sobretudo, pela palavra dita em cima de um palco, ainda que o título nacional ameace desviar a atenção do que realmente importa.

A trama acompanha Alex (Will Arnett), um homem em crise após o fim de um longo casamento com Tess (Laura Dern). Numa noite de depressão e bebida, ele entra em um bar que apresenta números de stand-up. Em um impulso, sobe ao palco e descobre um novo mundo, que o faz se reconectar com suas dores e reflexões. Em meio a uma crise amorosa, que se soma à crise da meia-idade, Alex se reconecta consigo mesmo ao assumir definitivamente sua nova carreira como comediante nos palcos noturnos de Nova York. Tess, por sua vez, também se redefine com a retomada da carreira profissional no esporte (ela foi uma famosa jogadora de vôlei). Bradley Cooper, em papel coadjuvante, surge como contraponto e apoio na trajetória do protagonista. É nesse delicado equilíbrio entre afeto e performance que o filme crava suas raízes.


A direção suave e orgânica de Bradley Cooper evoca, em certos momentos, o legado de cineastas como Mike Nichols e Rob Reiner, especialmente na maneira como articula conflitos íntimos sob a lente de um humor inteligente e por vezes cáustico. Sem pretender alcançar a mesma densidade de seus referenciais, o filme compartilha dessa tradição em que as tensões sociais e afetivas emergem com leveza aparente. Afinal, as verdades mais duras tendem a encontrar melhor acolhida quando atravessadas pela ironia.

Nesse contexto, o título adotado no Brasil é, no mínimo, infeliz. A tentativa de dialogar com o universo do stand-up soa artificial e pouco espirituosa, como se buscasse uma associação fácil com a expressão “Comédia em Pé”, popularizada por aqui como tradução livre do gênero cômico consagrado nos Estados Unidos. Em vez de captar a essência do original, a adaptação escorrega para um trocadilho simplório que evoca, ainda que involuntariamente, a tradição dos títulos de duplo sentido das pornochanchadas dos anos 1970. Algo que, convenhamos, está longe de fazer jus ao espírito do filme.


Há, contudo, uma questão mais estrutural a ser observada. O filme é conduzido por uma perspectiva essencialmente masculina, que orienta tanto o ponto de vista narrativo quanto a elaboração dramática. As experiências, angústias e transformações orbitam quase exclusivamente o universo do protagonista, enquanto as personagens femininas permanecem periféricas e secundárias, definidas mais pela relação que estabelecem com ele do que por conflitos próprios. É um traço que, embora não invalide a obra, revela os limites do alcance da obra.

Ainda assim, há beleza no modo como os números de stand-up funcionam como uma espécie de terapia. O palco se transforma em um divã improvisado, onde as confissões íntimas encontram a cumplicidade da plateia. O que poderia soar como mera exposição se converte em partilha. Naquele espaço, a vulnerabilidade é mediada pelo humor, e o riso coletivo legitima dores, fracassos e inseguranças. Nesse jogo entre franqueza e performance, o protagonista reelabora a própria narrativa, transformando experiências pessoais em espetáculo e, ao mesmo tempo, em mecanismo de autocompreensão.


É preciso lembrar ainda que, com a explosão midiática dos blockbusters e o incentivo permanente às superproduções, uma parcela significativa do público passou a demonstrar descontentamento com o esvaziamento das produções de pequeno e médio porte nas salas de cinema. Esses filmes, mais intimistas e centrados em personagens, pareciam destinados quase exclusivamente às plataformas de streaming. Eis, portanto, a boa notícia: Isso Ainda Está de Pé? ocupa com dignidade esse espaço rarefeito, resgatando um cinema menos espetacular e mais atento às nuances humanas. Um cinema calcado em personagens, conflitos cotidianos e boas histórias. Nada além disso. E, às vezes, nada é mais necessário do que simplesmente uma boa história bem contada.


É justamente nesse terreno fértil que a odisseia de autoconhecimento de Alex se desenvolve. Sua jornada percorre diferentes estágios que, por analogia, ecoam as fases emocionais vivenciadas em momentos de perda ou transformação profunda: a negação, a raiva, a barganha, a depressão e, por fim, a aceitação. Essas etapas funcionam como alicerces para a evolução da narrativa, conduzindo a personagem por um processo gradual de redescoberta. Ao longo desse percurso, Alex recupera parte da autoestima que, sabe-se lá por qual razão, parecia ter se diluído em algum ponto da vida conjugal. O filme, no entanto, ao optar por um desfecho resolutivo e harmônico, típico da tradição hollywoodiana, parece suavizar os conflitos anteriores, conferindo um tom moralista à trajetória. Ainda assim, a jornada emocional construída até ali sustenta a força da personagem, mesmo que o arremate final deixe espaço para questionamentos sobre os caminhos escolhidos pela narrativa.

Assista ao trailer: Isso Ainda Está de Pé?


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

Contato: janeladatela@gmail.com  /  jghiorzi@gmail.com

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

O Frio da Morte: sangue sobre a neve

 

Embora seja uma produção norte-americana em coprodução com a Alemanha, O Frio da Morte (Dead of Winter), dirigido por Brian Kirk, possui, em espírito, um coração europeu, ao menos no estilo e na ambiência. Nesse aspecto, o suspense estrelado por Emma Thompson se insere, de maneira enviesada, no modelo do chamado "suspense nórdico", inspirado em thrillers literários sombrios, atmosféricos e de cenários gélidos. Autores celebrados desse estilo, como Jo Nesbo, Lars Kepler e Stefan Ahnhem, entre outros, narram tramas focadas em mistérios intrincados, violência explícita e frieza emocional, aspectos todos muito presentes no longa. O roteiro, por sua vez, traz uma assinatura curiosa, pois foi coescrito pelo compositor de trilhas sonoras Nicholas Jacobson-Larson, aqui em sua primeira experiência como roteirista.

A trama acompanha Barb (Emma Thompson), uma viúva britânica que se mudou para uma remota região gelada dos Estados Unidos. Durante uma tempestade de neve, ela se perde e acaba chegando em uma casa isolada, onde faz uma descoberta aterrorizante: uma jovem é mantida em cativeiro. A partir desse momento, Barb se vê diante de um dilema que rapidamente se transforma em luta pela sobrevivência, pois os sequestradores percebem que foram descobertos.

A descoberta acidental de Barb desperta um alerta imediato na audiência. Diante da escassez de informações sobre aquela situação inesperada e aterrorizante, chegamos a cogitar estar diante de uma versão invernal dos caipiras psicopatas de O Massacre da Serra Elétrica. Contudo, o filme de Brian Kirk não tem esse alcance, e muito menos essa ambição. A referência ao clássico dos anos 1970 acaba restrita apenas à nossa imaginação, pois o longa definitivamente não entrega nada que se aproxime da crueza brutal daquela obra-prima do terror.

Sem avançar em direção a um indesejável spoiler, há um paralelismo entre a garota sequestrada e a filha da protagonista, o que desperta inevitavelmente seus instintos maternos de proteção e acolhimento. São esses mecanismos fundamentais que justificam por que uma senhora de idade assume o papel heroico que se impõe diante do risco da morte. Ao longo da história, somos gradualmente apresentados ao passado da personagem, aos fatos pretéritos que movem suas ações e sentimentos no presente. A construção desse passado é fragmentada, revelada em pequenos flashbacks e diálogos esparsos, como peças de um quebra-cabeça que o filme insiste em montar lentamente.

A personagem de Emma Thompson demonstra uma tenacidade extremada em seus propósitos, como se impusesse a si própria uma missão de vida, missão cujas respostas estão enraizadas em algum lugar do passado, marcado por um amor que transcendeu a morte. Apenas esses vislumbres do passado, compartilhados com a audiência, tornam aceitável sua transformação de uma dócil senhora em uma justiceira durona. As respostas estão no passado, e a ideia de um presente sem propósito revela-se, para ela, pior que a morte.

O problema é que, enquanto aguardamos o encaixe da última peça, a revelação integral das motivações do sequestro, o filme parece deliberadamente estender o percurso. Sem muitos elementos novos a oferecer ao espectador, a trama protela o desfecho até os momentos finais do terceiro ato. Esse adiamento, a princípio, poderia ser uma estratégia legítima de suspense, comum no chamado "suspense nórdico" que o filme evoca. Nas páginas dos livros a atmosfera e o mergulho psicológico muitas vezes importam mais do que a ação imediata. No entanto, em O Frio da Morte, a espera não é preenchida por tensão crescente ou por camadas adicionais de complexidade. Pelo contrário, as sequências intermediárias pouco contribuem para o andamento da narrativa. As situações se repetem e os diálogos giram em círculos, como se o único propósito fosse testar a paciência do espectador até a grande revelação.

O resultado é um descompasso entre a construção psicológica da protagonista e a condução do mistério. A história pessoal de Barb até oferece lastro emocional para suas escolhas, mas ela é dosada de forma tão moderada que, quando finalmente compreendemos o quadro completo, a surpresa chega enfraquecida pelo cansaço da espera. Em vez de um clímax explosivo ou de uma reviravolta de fato impactante, temos a sensação de que o filme poderia ter contado a mesma história em menos tempo (ainda que a duração seja relativamente curta) ou, quem sabe, deveria ter investido mais em desenvolver o presente enquanto nos fazia aguardar o passado.

A carreira de Emma Thompson inclui filmes de diversos gêneros, do drama à comédia, do romance à fantasia. No entanto, o thriller de suspense não marca presença significativa em sua filmografia. Em 1991 ela participou de Voltar a Morrer, dirigido e estrelado por Kenneth Branagh, então seu companheiro. O retorno da atriz ao gênero só ocorre agora, 35 anos depois, com este papel, que exigiu muito de ação e dinamismo para uma atriz de 66 anos de idade. A propósito, neste aspecto há que se fazer justiça: a atriz está convincente e dá muito bem conta do recado, ao viver uma personagem que não esconde a idade que tem.

Diante disso, podemos até relevar os furos, os clichês e as conveniências fáceis do roteiro para nos atermos ao deleite inusitado de ver Emma Thompson sangrando, tremendo de frio, lutando e atirando nos vilões. O filme, frio e pouco envolvente no geral, encontra sua razão de ser na presença calorosa de uma grande atriz em uma obra pouco memorável.

Assista ao trailer: O Frio da Morte


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Socorro!: uma fantasia de vingança

 

Mestre do terror independente e do grande espetáculo hollywoodiano, Sam Raimi apresenta em seu novo trabalho uma mistura instigante de sátira corporativa, thriller de sobrevivência e horror cômico. Socorro! (Send Help, 2026) acompanha Linda Liddle (Rachel McAdams), executiva competente e dedicada em uma empresa de consultoria, que vê sua merecida promoção a vice-presidente ser negada pelo novo CEO Bradley Preston (Dylan O’Brien), filho mimado do falecido fundador. Após um acidente aéreo durante uma viagem de negócios, os dois se tornam os únicos sobreviventes em uma ilha deserta, onde velhos ressentimentos e dinâmicas de poder se transformam em luta crua pela sobrevivência e domínio. Rachel McAdams, acostumada a papéis mais amenos e dóceis em comédias românticas ou dramas leves, encara aqui uma história pesada com convicção total. Ela está intensa, crua e multifacetada, revelando camadas de raiva contida, inteligência afiada e vulnerabilidade que tornam sua personagem inesquecível.

Sam Raimi é, em essência, um cineasta de gênero, forjado no terror independente de baixo orçamento, seu habitat natural. Sua assinatura já se revelava em Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio (The Evil Dead, 1981), produção quase amadora que inventava uma linguagem própria com sustos brutais entremeados de humor mórbido, câmera frenética e prazer sádico que transforma o horror em festival grotesco. Nos anos 2000, ele migrou para o mainstream com a trilogia Homem-Aranha (2002-2007), que redefiniu o gênero de super-heróis como um espetáculo emocional, repleto de efeitos visuais inovadores e vilões carismáticos. Esta fórmula infalível influencia os blockbusters até hoje.


Em Socorro! Raimi retorna ao seu terreno mais confortável, carregando a maturidade de quem conhece a estrada já percorrida. O filme tem muito a dizer. Critica o corporativismo tóxico, explora dinâmicas de poder invertidas, flerta com a sátira social e mergulha no espetáculo voyeurístico de explorar um drama de sobrevivência em uma ilha (um clássico cinematográfico). Linda, interpretada com brilho por McAdams, é o retrato perfeito dessa máquina desgastante. Ela é uma profissional brilhante cuja ascensão é bloqueada por nepotismo e machismo estrutural. O sexismo não aparece em episódios isolados, mas como lógica operacional da empresa. Decisões estratégicas ignoram resultados, ética e lógica, priorizando hierarquias de gênero, carisma masculino performático e heranças familiares. Bullying sutil, desprezo pelas contribuições femininas e objetificação naturalizada convertem o escritório em espaço predatório, onde a sobrevivência exige conformidade e silenciamento mais do que competência.


Raimi leva essa crítica a um território extremo ao deslocar o conflito para a ilha deserta. Sem estruturas institucionais que protegem os privilegiados, a opressão velada vira luta crua por poder, invertendo papéis de forma brutal. O filme não é só sobrevivência; é uma fantasia de revanche desconfortável que nos faz questionar o que acontece quando as vítimas do sistema ganham controle absoluto. Sem respostas fáceis ou redenções morais, deixa o riso preso na garganta diante do quão feio e familiar o poder se torna ao trocar de mãos, mas não de natureza.


Ainda dentro do tema de personagens forçados a uma convivência extrema pela sobrevivência, vale lembrar dois clássicos do subgênero. O mais recente deles é Náufrago (Cast Away, 2000), de Robert Zemeckis, com Tom Hanks em uma luta solitária contra a natureza e o isolamento psicológico. Já o outro exemplo, mais antigo e talvez mais próximo em espírito, é Inferno no Pacífico (Hell in the Pacific, 1968), dirigido por John Boorman. Nesse drama minimalista ambientado na Segunda Guerra Mundial, um piloto americano (Lee Marvin) e um oficial naval japonês (Toshiro Mifune), inimigos mortais, se encontram isolados em uma ilha deserta do Pacífico. Sem diálogos (eles não falam a mesma língua), eles alternam entre hostilidade, cooperação forçada e momentos de humanidade relutante, descobrindo que a sobrevivência depende de superar diferenças ideológicas e trabalhar juntos. A premissa de Socorro!, com as devidas ressalvas, encontra um eco moral nesse clássico dos anos 60. Ambos realizadores exploram como o isolamento desnuda hierarquias artificiais e obriga o confronto com o outro (e consigo mesmo), mas, enquanto Boorman busca uma reconciliação ambígua e existencial, Raimi opta por uma inversão brutal de poder e uma revanche desconfortável.


Essa amplitude temática é, ao mesmo tempo, a força e fraqueza de Socorro!. A narrativa oscila entre drama corporativo, comédia de sobrevivência, thriller psicológico e gore exagerado, mas com problemas de ritmo. Mudanças bruscas de tom por vezes parecem caprichos estilísticos, comprometendo parcialmente a imersão. Ainda assim, é nessa instabilidade que Raimi brilha. Ele usa o caos para amplificar o desconforto, transformando a ilha em laboratório de impulsos primitivos como vingança, dominação e crueldade que emergem sem pudor. O resultado não é equilibrado nem perfeito, mas vibrante, barulhento e irreverente, fiel à personalidade do diretor, sempre disposto a nos fazer rir mesmo diante do sangrento e violento.

Assista ao trailer: Socorro!


Jorge Ghiorzi

Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul)

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Marty Supreme: mergulho no abismo da ambição

 

Quem já assistiu a Joias Brutas (Uncut Gems, 2019), codirigido por Josh e Benny Safdie, reconhecerá imediatamente o estilo autoral que Josh Safdie reafirma em Marty Supreme (2025), seu primeiro longa-metragem em direção solo desde a parceria com o irmão. Assim como no filme estrelado por Adam Sandler, um senso de urgência implacável atravessa toda a narrativa, instaurando uma atmosfera de caos meticulosamente orquestrado que arrasta o espectador para um estado de tensão quase contínua.

Esse modelo frenético reaparece em Marty Supreme por meio de uma sucessão de acontecimentos aparentemente aleatórios, que irrompem na trama como pequenos núcleos narrativos quase autônomos. Interlúdios caóticos envolvendo personagens secundários excêntricos e situações imprevisíveis parecem, à primeira vista, ligeiramente deslocados da linha central da história. Trata-se, no entanto, de uma ilusão cuidadosamente construída. Esses desvios não fragmentam o filme, mas ampliam seu alcance temático. O efeito é semelhante ao pânico existencial que atravessava o já citado Joias Brutas. O resultado é um filme explosivo e imprevisível, comparável a uma partida de tênis de mesa ágil, nervosa e definida por reviravoltas improvisadas, tratada como uma metáfora direta para o mundo instável que cerca seu protagonista.

Embora seja uma história ficcional, o personagem Marty Mauser, interpretado com intensidade por Timothée Chalamet, carrega ecos vagos do lendário jogador de tênis de mesa norte-americano Marty Reisman, ícone dos anos 1940 e 1950. Conhecido como “The Needle” (O Agulha) por sua magreza, Reisman elevou o esporte a um espetáculo de entretenimento participando de exibições promocionais, influenciando diretamente a construção de um anti-herói carismático, manipulador e performático.

Nesse contexto, os adjetivos que orbitam Marty Mauser (narcisista, arrogante, pretensioso, manipulador, oportunista e performático) deixam de funcionar como meros traços psicológicos e passam a operar como sintomas de uma lógica cultural mais ampla. Marty é menos um indivíduo singular do que a encarnação de um tipo reconhecível. O malandro contemporâneo, moldado por uma ética de autopromoção permanente, que confunde ambição com destino e carisma com legitimidade. Ao acompanhar sua trajetória quase ritualizada em direção ao sucesso, Marty Supreme constrói um retrato deliberadamente caótico e visceral dos mecanismos que produzem a fama, intrinsecamente instável e efêmera, alimentada pelo excesso e pela exposição, e que carrega, desde a origem, a semente inevitável da autodestruição.

Um dos destaques do elenco é a atriz Gwyneth Paltrow, que interpreta Kay Stone, uma estrela de cinema aposentada e socialite rica, casada, que se envolve com Marty. Sua presença marca um retorno às telas em produções de grande visibilidade, após anos afastada dos holofotes cinematográficos. Paltrow traz sofisticação, profundidade emocional e um toque de ironia refinada a Kay, revelando vulnerabilidades sutis, embora a complexidade da personagem não seja explorada em toda a sua extensão, já que o foco absoluto do filme permanece no protagonista e em sua jornada obsessiva.

Outro elemento marcante é a trilha sonora, que mescla hits clássicos dos anos 1980, com canções de Tears for Fears, Peter Gabriel e New Order. Essa escolha ousada, contrastando com o cenário dos anos 1950, amplifica a energia ansiosa de Marty, transformando a narrativa em uma experiência vibrante.

O interesse de Marty é um tanto ambíguo, não se limitando meramente ao dinheiro ou aos benefícios decorrentes do capitalismo. Sua luta interior revela algo mais profundo, ligado ao ego, à autoestima, ao reconhecimento social e aos desafios pessoais que o impulsionam no mundo do tênis de mesa. O filme estabelece, nesse sentido, um arco simbólico que evoca os cerca de nove meses da gestação, iniciado pelo ato sexual que resulta na gravidez indesejada da namorada Rachel (a ótima Odessa A’zion, uma atriz a ser acompanhada com atenção) e culminando no nascimento da criança ao final da jornada. Dentro desse recorte temporal, que funciona como metáfora central para o processo de transformação do protagonista, Marty alternadamente nasce, perece, renasce, vence e sucumbe, até alcançar seu momento de redenção e epifania pessoal, reconciliando-se com suas ambições e relações.

Em resumo, Marty Supreme é uma obra explosiva de Josh Safdie que captura o frenesi da ambição tóxica, transformando o tênis de mesa em metáfora perfeita para o caos da fama. O filme proporciona uma experiência cinematográfica emocionalmente intensa, reafirmando Safdie como um dos cineastas mais vibrantes de sua geração.

Assista ao trailer: Marty Supreme


Jorge Ghiorzi

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domingo, 11 de janeiro de 2026

O Beijo da Mulher Aranha: a arte como resistência

Quatro décadas após a impactante adaptação de Hector Babenco, O Beijo da Mulher Aranha ganha nova vida nas telas em 2025, dirigida por Bill Condon (Deuses e Monstros e Dreamgirls). Para o público brasileiro, a expectativa inicial poderia ser a de um simples remake hollywoodiano do clássico de 1985. Mas não é bem isso. Esta versão adapta o premiado musical da Broadway de 1993, que também se baseia no romance do argentino Manuel Puig. Essa origem teatral explica a predominância dos números musicais, que invadem a narrativa com exuberância, muitas vezes sacrificando a profundidade do contexto político central na obra original.

Em meio à violência e à degradação de uma prisão argentina durante a ditadura militar dos anos 1980, onde a tortura e a vigilância constante buscam aniquilar qualquer resquício de humanidade, Luis Molina (interpretado por Tonatiuh, com entrega, delicadeza e autonomia marcantes), um decorador de vitrines condenado por atentado ao pudor, divide a cela com o preso político Valentín Arregui (Diego Luna). Para escapar dos horrores cotidianos, Molina narra o enredo de seu musical hollywoodiano favorito, estrelado pela diva Ingrid Luna (Jennifer Lopez) no papel da sedutora Mulher-Aranha. Uma fantasia que, aos poucos, transforma a relação improvável entre os dois em um laço profundo de empatia, vulnerabilidade e amor.

Apesar do background já gravado no inconsciente coletivo daqueles que conhecem a adaptação icônica dos anos 1980, é preciso destacar que os protagonistas desta versão constroem personagens distintos e autônomos em relação ao trio clássico de Babenco (William Hurt, vencedor do Oscar por este papel, Raul Julia e Sonia Braga). As atuações de Tonatiuh e Diego Luna oferecem uma leitura fresca e contemporânea, especialmente sensível às nuances de gênero, identidade e vulnerabilidade emocional.

A nova adaptação abraça deliberadamente o escapismo e tangencia o pano de fundo sociopolítico. Há uma ousadia comedida ao privilegiar a beleza em detrimento da tragédia. Politicamente tímido, distante e pouco comprometido, o filme potencializa a ficção como forma de resistência, afirmando dignidade e humanidade apesar da ditadura. Uma perspectiva que, por fim, ainda ecoa no contexto atual.

O cerne emocional do filme reside na declaração de Molina, que diz ter descoberto a dignidade justamente no lugar mais indigno do mundo. Essa afirmação sintetiza a conexão improvável entre ele e Valentín, que nasce do escapismo compartilhado de filmes e musicais, evolui para uma empatia profunda e culmina em um amor que transcende rótulos de gênero, orientação sexual ou ideologia. Em meio à opressão da prisão, a fantasia deixa de ser simples evasão e se transforma no caminho para redescobrir a humanidade, o afeto e a autoestima.


O projeto conta com nomes de peso como Ben Affleck e Matt Damon, como produtores executivos, ao lado da própria Jennifer Lopez que também atua como produtora, tornando o longa um veículo pessoal para seu estrelismo. Os números musicais que protagoniza resgatam um glamour tardio dos grandes musicais da Metro-Goldwyn-Mayer, com produção luxuosa e coreografias elegantes, mas nenhum se destaca como memorável. Falta a grandiosidade visionária de um Busby Berkeley ou a inventividade revolucionária de Bob Fosse.

Visualmente suntuoso em algumas passagens, o filme de Condon celebra a beleza como ato de resistência, mas sua timidez política e os problemas narrativos impedem que alcance toda a potência trágica e subversiva do material original. Ao transitar entre os dois polos (a brutalidade opressiva da prisão e o brilho fantástico dos musicais), o diretor não consegue contornar por completo os tropeços de ritmo e narrativa decorrentes dessa alternância constante entre universos tão distintos, o que gera uma sensação de irregularidade no fluxo e deixa pairar no ar uma dúvida sobre o efetivo propósito da obra. Ainda assim, no geral, permanece uma celebração tocante do poder transformador da arte e da dignidade que ela consegue preservar mesmo nas sombras mais escuras. Aspectos que pertencem de fato à essência da obra original de Manuel Puig, e que esta nova versão tende a diluir em favor de um tom mais escapista e luminoso.

Assista ao trailer: O Beijo da Mulher Aranha

Jorge Ghiorzi

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domingo, 4 de janeiro de 2026

Hamnet – A Vida Antes de Hamlet: quando luto vira arte

A força motriz da criação artística provém de diversas fontes: a beleza efêmera da natureza, a euforia do amor, a indignação diante da injustiça social, até os abismos mais sombrios da experiência humana. Dentre elas, uma das mais poderosas é, sabidamente, a dor. Essa companheira inevitável transforma o sofrimento íntimo em manifestações que reverberam na alma coletiva. É exatamente essa premissa que ganha corpo no drama Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025), dirigido pela cineasta chinesa Chloé Zhao, vencedora do Oscar de Melhor Diretora e Melhor Filme por Nomadland (2020), e que já havia explorado um universo completamente distinto com o filme de super-heróis Eternos (2021), da Marvel. Esses três projetos, de gêneros e orçamentos tão díspares, revelam a versatilidade de Zhao, capaz de transitar com sensibilidade entre o intimismo poético, o épico coletivo e agora o drama histórico introspectivo.

Adaptado do romance homônimo de Maggie O’Farrell (publicado em 2020 e coadaptado para o roteiro pela própria autora em parceria com Zhao), o filme apresenta uma sinopse imaginativa e ficcional. Em meados do século XVI, na Inglaterra elisabetana, Agnes Hathaway (Jessie Buckley), uma curandeira ligada à natureza, casa-se com o jovem William Shakespeare (Paul Mescal). Juntos, vivem o amor, a paternidade e a tragédia da morte prematura do filho Hamnet, aos 11 anos, vítima da peste. O filme especula com delicadeza e profundidade que esse luto devastador tenha funcionado como catalisador emocional para a criação da peça Hamlet, uma das tragédias mais profundas da literatura. Embora a conexão direta entre o luto real do dramaturgo e a obra permaneça uma especulação histórica sem comprovação documental, a narrativa constrói um retrato comovente do amor, da perda, da superação e do poder redentor da arte. O espectador é convidado a refletir sobre como as feridas mais profundas podem, contraditoriamente, germinar as sementes de uma criação artística imortal.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet não se vale do luto como artifício fácil para arrancar empatia do espectador. Em vez disso, a dor e a culpa introspectiva de Agnes e William Shakespeare recebem uma abordagem libertadora. O sofrimento se torna um gatilho emocional vigoroso, capaz de romper bloqueios internos e abrir caminho para uma superação genuína. Trata-se de uma evolução espiritual sutil, porém sublime, que se manifesta na reconfiguração radical da própria perspectiva diante dos inevitáveis desafios da vida e do mundo.

A sequência final do filme é devastadora ao tocar fundo na alma do espectador, ressoando cordas emocionais que vão muito além do luto individual. Na estreia da tragédia Hamlet no Globe Theatre, Chloé Zhao transforma a dor íntima de Agnes em um ato coletivo de catarse que ecoa pelo público ao redor, dissolvendo as barreiras entre o privado e o público, entre a tragédia pessoal e a arte universal. Naquele momento, somos todos um único organismo unificado. É como se, naquele instante sublime, o teatro permitisse uma forma de ressurreição simbólica. Pela magia do palco, o sofrimento de Agnes e Will encontra, por fim, um espaço para ser compartilhado e, de alguma forma, aliviado. Não há resolução fácil ou consolo barato. O que resta é a reconciliação delicada com a perda. A arte transforma o insuportável em algo eterno e, paradoxalmente, vivo. Essa cena não apenas fecha o filme. Ela o eleva, deixando o espectador com o peito apertado, mas também com uma estranha sensação de gratidão pela capacidade humana de converter dor em significado.

Com atuações avassaladoras de Jessie Buckley e Paul Mescal, que capturam a complexidade do amor e da perda de forma emocionalmente intensa e visualmente poética, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet se consolida como uma das obras mais poderosas da temporada 2025/2026. Uma meditação profunda sobre como a dor familiar pode se transmutar em arte transcendental, representada por um filme construído com extrema sensibilidade e compreensão da alma humana.

Assista ao trailer: Hamnet – A Vida Antes de Hamlet


Jorge Ghiorzi

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