
Os anos 90 foram marcados pela proliferação
das boy bands, fenômeno que conquistou o mundo da música e deixou um legado
nostálgico. Algumas dessas bandas alcançaram o topo das paradas musicais e
lotaram estádios ao redor do globo, tornando-se ícones de uma geração. Hoje,
são lembradas com carinho por fãs que, em muitos casos, já são adultos e até
pais de família. Grupos como Backstreet Boys, *NSYNC, New Kids on the Block e
One Direction viveram o auge do sucesso, mas também enfrentaram o inevitável
declínio que acompanha a fama meteórica.
As meninas também tiveram
seu espaço nesse cenário. No Reino Unido, as Spice Girls surgiram como um
furacão cultural, redefinindo o conceito de girl power e rivalizando em
popularidade com outro fenômeno britânico que conquistou o mundo: o Take That.
Foi nesse contexto de ascensão e queda, de glória e desafios, que histórias
como a retratada no filme Better Man ganham vida, oferecendo um olhar sobre
os bastidores da fama e os sacrifícios que ela exige.

Artista mais destacado do
Take That em sua formação original, Robbie Williams ganhou uma projeção que
inevitavelmente incomodou a vaidade dos demais participantes do grupo. Então, o
inevitável aconteceu: Robbie foi gentilmente convidado a sair. Foi nesse
momento que começou a fase de maior sucesso de sua carreira, quando ele se
lançou como cantor e compositor solo. Rapidamente, tornou-se o maior astro da
música britânica e um dos maiores nomes da cena pop mundial. A cinebiografia Better
Man – A História de Robbie Williams (Better Man, 2024) conta essa
trajetória de uma maneira que você nunca viu, recriando o artista como um
macaco, e não como um ser humano.
À primeira vista, a história
de Robbie Williams parece seguir um arquétipo familiar no universo das
cinebiografias de superastros da música: a ascensão meteórica, os excessos do
estrelato, as batalhas contra os vícios e a busca por redenção. Em outras mãos,
essa narrativa poderia resultar em um filme trivial e previsível, mais um
retrato convencional de fama e decadência. No entanto, Better Man escapa
dessa armadilha ao introduzir uma inovação audaciosa: a substituição do artista
de carne e osso por um macaco gerado por CGI. Essa escolha surreal e simbólica
não apenas desafia as expectativas do público, mas também liberta a narrativa
dos limites convencionais do gênero.

Consta que a ideia de
utilizar a figura de um macaco surgiu nos momentos iniciais do projeto, quando
o realizador questionou Robbie Williams sobre qual animal melhor o representava
ou com qual ele mais se identificava. O resultado dessa pergunta está na tela.
O macaco, como uma figura fantástica e quase onírica, permite explorar a psique
de Williams de maneira mais livre e metafórica, transformando a cinebiografia
em uma experiência visual e emocional que transcende a mera reconstituição de
fatos. É como se o filme dissesse que, para entender a complexidade de um ícone
pop, é necessário ir além da realidade — adentrar o reino da fantasia, onde os
conflitos internos e as verdades mais profundas podem ser revelados de forma
mais vívida e impactante.
O conceito que sustenta Better
Man é, ao mesmo tempo, inovador, desafiador e disruptivo. Em um gênero
frequentemente marcado por narrativas que glorificam o ego e a mitologia
pessoal de artistas famosos, este filme opta por um caminho inverso e
surpreendente. Em vez de mergulhar na exposição convencional da imagem pública
de Williams, o filme suprime a estética e o simbolismo tradicionalmente
associados ao artista. A ausência de sua figura reconhecida — seja por meio de
imagens de arquivo ou reconstituições — é uma escolha audaciosa que convida o
espectador a refletir sobre a persona versus a pessoa, o mito versus a
realidade. Essa abordagem não apenas desafia as expectativas do público, mas
também expande os limites do que uma cinebiografia costuma ser, priorizando a
introspecção e a humanidade em detrimento de uma simples celebração do
estrelato.

Os números musicais e a
exploração do universo interior de Robbie Williams proporcionam os momentos
mais memoráveis e visualmente espetaculares de Better Man. Aqui, o
adjetivo "espetacular" se justifica plenamente: trata-se de uma
experiência que encanta o olhar, com um sedutor espetáculo de cores, luzes,
movimento e encenação. Essas sequências, repletas de energia e inventividade,
ecoam as origens britânicas do artista, remetendo em certa medida ao cinema
lisérgico e psicodélico do “malucão” conterrâneo Ken Russell, um dos cineastas
mais ousados e visionários da Inglaterra. Não é difícil traçar uma conexão
entre a estética exuberante de Russell — conhecido por suas narrativas
alucinadas e visuais extravagantes em filmes como Tommy e Os Demônios
— e a abordagem do diretor australiano Michael Gracey, que parece ter bebido
dessa fonte para criar cenas que transcendem a simples biografia e mergulham no
universo sensorial e emocional de Williams.
O mergulho de Robbie
Williams em sua biografia, apesar de sua condição de produtor executivo e
colaborador do roteiro, está longe de ser um mero exercício de ego trip ou
uma celebração autocomplacente de sua carreira. Seu propósito transcende a
simples glorificação pessoal, revelando-se mais profundo e introspectivo.
Williams parece genuinamente disposto a se expor diante das câmeras com uma
honestidade rara, na plenitude de sua humanidade e vulnerabilidade. Ele não
hesita em revelar suas falhas de caráter, suas fraquezas e os momentos de
derrocada causados pelos vícios que quase destruíram sua vida e carreira. Better
Man funciona, assim, como uma espécie de sessão de terapia coletiva, na
qual o artista se submete a uma autoanálise pública, sem censura ou medo de
julgamentos. Essa abordagem corajosa não apenas humaniza Williams, mas também
convida o público a refletir sobre suas próprias lutas e imperfeições,
transformando o filme em um espelho tanto para o artista quanto para quem o
assiste.

Apesar de Better Man ser
uma cinebiografia não convencional, estrelada por um personagem ‘macaco’, esse
fato não exige demasiada suspensão de descrença por parte da plateia. Tudo flui
com naturalidade e incrível verossimilhança. Não há estranhamento, e o conceito
é rapidamente aceito, integrando-se naturalmente à narrativa. A essência do
filme está em outro local: na análise fria e humana dos desafios que uma vida
de fama e sucesso exigem de um artista. Original e ousado, Better Man é
um espetáculo. E isso é tudo que poderíamos querer.
Assista ao trailer: Better
Man – A História de Robbie Williams
Jorge Ghiorzi
Membro da ABRACCINE (Associação Brasileira de
Críticos de Cinema) e ACCIRS (Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do
Sul)
Contato: janeladatela@gmail.com /
jghiorzi@gmail.com
@janeladatela